A vida me persegue


Saí em desespero

Mas parei por perto

Queria acelerar sem rumo

Faltou gasolina

Faltou vontade de interagir com frentista

Ou qualquer outro ser


Ali, parada, imaginei um assalto

Mentira! Eu desejei

Foram mais de cinco horas esperando

Ninguém!

Eu diria: "leve tudo e por favor me mate!"


Talvez, se meu peito fosse cravejado de balas

A dor escorresse um pouco por cada buraco

E eu…

Talvez eu finalmente sentisse o tal do alívio.


Aliviada!

Era assim que eu gostaria de me sentir

Mas ninguém veio.


Veio compulsão

De comida

De álcool

E quando falhei novamente…

De choro


Quanto mais eu chorava

Mais doía

Só a morte poderia me salvar

Mas a vida me perseguia…


Voltei para o meu canto

Escrevi a carta de suicídio

Não queria ninguém culpado

Achando que poderia ter evitado

Porque ninguém poderia…


Como posso morrer sem sentir mais dor?

Exausta

Desmoronada

Quebrada

Profundamente triste


Pensei no gás

Mas temi que a vida

Me perseguisse mais uma vez

E me deixasse com ela

E com sequelas


Talvez minha casa fosse ventilada demais

Talvez não desse certo…

Olha eu, de novo, querendo controle

Até da morte

Ou da vida?

Nem sei


Continuo viva

E triste

A cada instante mais triste


Nenhuma conversa me atrai

Por isso, o silêncio

É fácil calar

É como ser acolhida por um edredom gelado

Que vai esquentando

E dizendo que posso ficar

O tempo que desejar


E de repente

Vejo que desejo mais

Mais silêncio

Mais solidão

Mais ausência


E se eu nunca mais falar?

Dirão que é punição

É possível que já digam ou pensem…

Mas, que importa?


Sempre faltou compreensão

Incompreendida

Deslocada

Cansada

E… Triste.


Não vejo e já não procuro sentido

Quis pertencer

Mas acho que esse desejo

Também escorreu com as lágrimas


Nada para compartilhar

Nada a reivindicar

Por que, então, falar?


Estou cada vez mais confortável

É como se já estivesse morta

Mas com a vida me perseguindo

Me enchendo o saco!


Lembro que quando achei

Que não iria conseguir me separar

Decidi viver como se tivesse o feito

Agora, que não consigo me matar

Escolho viver como se tivesse morrido.


Janeiro de 2021




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