Que passo. Que coragem. Quantas foram mesmo as vezes que te chamei de covarde? Perdi as contas. E agora o vejo crescendo e crescido. Como se tivesse descido de um falso pedestal para começar a trilhar os caminhos novamente, o vejo grande, um gigante incapaz de esmagar alguém. Um gigante que me ensinou como adulto, brincou e aprendeu como criança.
Cometemos deslizes, nos magoamos. Lutei contra todos os padrões impostos pela sociedade e não posso dizer que você não fez o mesmo. Dividi, esperei, espero. Brincamos com a confiança e com a liberdade. Enlouqueci, de dor, de ciúme, de medo, de alegria, de amor. Tive minha alma toda trancafiada dentro do meu coração, brigando por espaço com a lembrança e a imaginação. Tenho minha alma transbordando, desejando retribuir um bem que não sei definir. Você errou, eu errei e pagamos. Continuamos lutando, por nós, contra o tempo, contra uma torcida de ambos os lados. Nos fizemos mais fortes.
Como posso dizer que estou com você? Que palavras devo usar para dizer que torço, torço e torço? Que meu rancor não chega perto da paz que sinto ao vê-lo bem? Como faço para dizer que aposto todas as minhas fichas na sua competência? Que o admiro como uma fã? Que seu sorriso é gratificante?
Nossa história é o livro que me deixaria rica, mas que não tenho coragem de expor. Complexa e muito bonita. Todos os “apesares” foram, e ainda são, fundamentais para a constituição de tamanha beleza. Como nos filmes, nas novelas, na maldita Malhação...
Eu estava escrevendo sobre você e mudei para nós. É inevitável. Como eu dizia lá no início, o vejo esperançoso, vivo. Confesso que essa vontade de viver é o que me motiva a emergir da tristeza profunda e “sem motivo” que faz parte de mim.
De repente, o covarde se enche de coragem para juntar os cacos e substituí-los por novos vidros, talvez tão sujeitos a se quebrarem como os de antes, talvez aguardando um pequeno escorregão, talvez mais cortantes, mais multiplicáveis, mas, certamente, manejados por mãos mais cuidadosas, maduras e leves o suficiente para não sufocá-los. O vejo triunfante.


