"O escritor original, enquanto não está morto, é sempre escandaloso" (Simone de Beauvoir)

Domingo, Março 04, 2012

depois da tempestade...

Que passo. Que coragem. Quantas foram mesmo as vezes que te chamei de covarde? Perdi as contas. E agora o vejo crescendo e crescido. Como se tivesse descido de um falso pedestal para começar a trilhar os caminhos novamente, o vejo grande, um gigante incapaz de esmagar alguém. Um gigante que me ensinou como adulto, brincou e aprendeu como criança.

Cometemos deslizes, nos magoamos. Lutei contra todos os padrões impostos pela sociedade e não posso dizer que você não fez o mesmo. Dividi, esperei, espero. Brincamos com a confiança e com a liberdade. Enlouqueci, de dor, de ciúme, de medo, de alegria, de amor. Tive minha alma toda trancafiada dentro do meu coração, brigando por espaço com a lembrança e a imaginação. Tenho minha alma transbordando, desejando retribuir um bem que não sei definir. Você errou, eu errei e pagamos. Continuamos lutando, por nós, contra o tempo, contra uma torcida de ambos os lados. Nos fizemos mais fortes.

Como posso dizer que estou com você? Que palavras devo usar para dizer que torço, torço e torço? Que meu rancor não chega perto da paz que sinto ao vê-lo bem?  Como faço para dizer que aposto todas as minhas fichas na sua competência? Que o admiro como uma fã? Que seu sorriso é gratificante?

Nossa história é o livro que me deixaria rica, mas que não tenho coragem de expor. Complexa e muito bonita. Todos os “apesares” foram, e ainda são, fundamentais para a constituição de tamanha beleza. Como nos filmes, nas novelas, na maldita Malhação...

Eu estava escrevendo sobre você e mudei para nós. É inevitável. Como eu dizia lá no início, o vejo esperançoso, vivo. Confesso que essa vontade de viver é o que me motiva a emergir da tristeza profunda e “sem motivo” que faz parte de mim.

De repente, o covarde se enche de coragem para juntar os cacos e substituí-los por novos vidros, talvez tão sujeitos a se quebrarem como os de antes, talvez aguardando um pequeno escorregão, talvez mais cortantes, mais multiplicáveis, mas, certamente, manejados por mãos mais cuidadosas, maduras e leves o suficiente para não sufocá-los. O vejo triunfante. 

Sexta-feira, Fevereiro 17, 2012

Dirigir



Tentei esconder da minha psicóloga o fato de que eu não sabia dirigir e nunca havia, sequer, tentando. Mas psicólogos são psicólogos e, num belo dia, quando relatei que minha avó tinha se queimado e tive que ligar para minha mãe, ela perguntou: “você estava sem carro?” Eu, naturalmente, expliquei que mesmo que tivesse um carro de nada adiantaria. Primeiro, o espanto. Ora, quantas moças aos 18 pedem a carteira de habilitação aos pais? Quantas, quando conseguem um emprego, investem nisso na primeira oportunidade? O que faz com que uma professora de 23 anos não tenha o menor interesse em dirigir? Depois, a constatação de que realmente não poderia receber alta muito em breve. E, por fim, os argumentos.

E se seu marido passa mal e vocês estiverem sozinhos em casa? Quanto tempo demora um táxi?; Independência, facilidade...; Levar filho(a) na escolinha; emergência... Os argumentos são os mesmos que todo mundo usa. De fato, não saber dirigir me torna muito dependente dos outros, mas isso não é o suficiente para me convencer de que devo imediatamente me matricular numa auto escola.  Confesso que penso um pouco na possibilidade nos dias de chuva, já tive que recuar algumas vezes e também já cheguei e voltei do trabalho completamente encharcada, histórias de quem anda de ônibus... Aliás, tenho muitas e boas para contar.

Você deve estar se perguntando que tipo de trauma sofri na infância ou qual é meu grande medo. Não tenho medo, apesar de sempre achar que um caminhão vai tombar em cima de mim quando estou tranquilamente observando o movimento, enquanto o coitado do motorista dirige. Também não me lembro de nenhum trauma, mas, trauma a gente não lembra né? Não é medo, é preguiça mesmo. Eis a resposta que não convence ninguém. Parece difícil demais para as pessoas compreenderem que tenho outras prioridades e vontades na vida, que imagino que dirigir seja uma coisa muito chata e, principalmente, que tenho consciência de que Laís no volante seria perigo constante.

Quantas pessoas você conhece que escalaram a parede de casa com uma moto e, de quebra, arrancaram a janela? Pois é, fiz isso, achava que deveria acelerar tanto quanto nos filmes, tipo Velozes e Furiosos... Não tenho o menor senso de direção, certamente se pegar num carro, levarei ele, o portão e tudo que tiver pela frente embora. Não enxergo os nomes das ruas, não tenho paciência com gente devagar – vivo assumindo a buzina no lugar da minha mãe - , não sei me localizar – para onde me levarem estou indo - , sou muito ansiosa – jamais aguentaria um congestionamento, por culpa minha as pessoas levam multa, insisto incansavelmente para que vão pelo acostamento e pimba! - , gosto de olhar o céu, as construções, o celular,  as caras das pessoas nos pontos de ônibus e em  outros carros, esticar as pernas, sentar que nem índio, fechar os olhos quando a claridade me incomoda... À noite, as luzes fazem com que as coisas se embacem e se multipliquem diante dos meus olhos. Não sei explicar como uma pessoa deve chegar até a casa que moro desde os três meses de idade, quem dirá encontrar um endereço. Enfim, não dá!

No entanto, tudo isso me faz pensar que talvez o problema não seja a falta de vontade, o automóvel em si, minhas limitações, mas a preguiça que pareço ter de trilhar um caminho, de conduzir, sozinha, alguma coisa, de ser a gestora, governar, dirigir. Prefiro ser carregada a carregar qualquer coisa na vida. 

Domingo, Fevereiro 12, 2012

Para ler e pensar!

Quero o meu saco de volta! Por que a escola nos azucrina, ensinando coisas que jamais usaremos? Max Gehringer Como a maioria dos leitores desta coluna, eu também fui um dia arrancado da frente da TV e confinado, apesar de protestar inocência, em uma organização correcional chamada "escola". Essa foi a maneira de meus pais demonstrarem a que limites de crueldade poderia chegar o que eles chamaram de "preocupação com o futuro dos filhos". Mas o maior choque, mesmo, veio depois, quando eu e meus novos coleguinhas de infortúnio fomos informados de que ali, naquelas desconfortáveis carteiras, nós teríamos de passar os próximos 15 anos de nossa vida! Nunca pensei que o futuro pudesse ficar tão longe... Meu pai bem que tentou me convencer de que haveria uma recompensa à altura para tanto sacrifício: a partir do momento em que eu botasse os pés na escola, ele disse, eu teria acesso privilegiado a informações importantíssimas - como, por exemplo, os nomes das capitanias hereditárias e de seus respectivos donatários -, sem as quais seriam mínimas as minhas chances de escapar às emboscadas do futuro. Para minha surpresa, nem três meses se passaram e eu já dominava duas habilidades que me seriam de grande utilidade pela vida afora: ler e escrever. Foi aí que eu comecei a desconfiar que todas as outras picuinhas que compõem o dito "cabedal de conhecimento"... 1. Estariam disponíveis em algum lugar, desde que a gente soubesse ler. 2. Poderiam ser terceirizadas, desde que a gente pudesse pagar. 3. Não interessavam. Convicto de que já sabia o suficiente, decidi voltar para casa e me dedicar a coisas de pertinente interesse, como passar o dia jogando bola e devorando salgadinhos. Ledo engano: meus pais ficaram uma arara (digo, duas araras) e me mandaram de volta. Tal reação intempestiva me levou a desconfiar que eles até já haviam feito um acordo secreto com as escolas, pelo qual eu ficaria enclausurado por mais 14 anos e 9 meses, tempo suficiente para a prática dos papai-e-mamãe matinais sem um enxerido como eu por perto. Voltei a contragosto mas, verdade seja dita, devo reconhecer que as escolas empregaram a nata de sua criatividade para conseguir me manter ocupado por tanto tempo. Foi o caso das aulas de português, que me davam a impressão de estar no pronto-socorro de um hospital: "Isso é um anacoluto ou uma catacrese? - a professora me perguntava. Eu sei lá, mas, por via das dúvidas, sugeria que ela amputasse a mesóclise para evitar uma cacofonia mais séria. Matemática foi outra matéria que transmitiu ensinamentos vitais para minha futura carreira profissional, como a extração sem dor da raiz quadrada - Eu era meio ruim de conta, mas quando estava na terceira série, às voltas com uma tabuada e questões de crucial importância ("Joaquim tinha 18 bananas: deu um terço delas para Marta e metade da diferença para Beatriz..."), caiu-me nas mãos um prodígio tecnológico: a calculadora. Com ela, nunca mais os joaquins teriam dificuldades para repartir suas bananas - mas o que foi que a escola fez? Proibiu o uso das calculadoras na classe! Porque, por uma lógica pedagógica além da minha compreensão, se eu tivesse uma calculadora para facilitar minha vida, eu "ficaria preguiçoso, e isso iria prejudicar o meu futuro". Apesar dos pesares. conclui minha formação básica e já estava para encarar uma "facu" - ou seja, faltavam apenas quatro anos para eu terminar de cumprir minha pena e ser solto no mercado de trabalho - quando fui informado de que, no futuro, nada era assim tão simples. Eu antes precisaria fazer um cursinho, porque as coisas que seriam perguntadas no vestibular não eram exatamente as que eu tinha aprendido nos 11 anos anteriores. Se entendi bem, nas universidades os joaquins precisavam desvendar os segredos da tábua de logaritmos para poder distribuir suas bananas. Se as bananas apodreceriam antes disso, o problemas era dos joaquins, e não do sistema educacional. Uma coisa que me chamou a atenção no curso, por assim dizer, superior, foi que lá fora, no mundo que estavam me preparando para conquistar, começou a proliferar uma engenhoca chamada microcomputador (com 16K de memória). Mas só lá fora, porque ali na "facu", eu desconfio, o lobby dos fabricantes de lápis e canetas ainda era muito poderoso. Quando meu professor descobriu que eu estava fazendo um curso paralelo de Lotus 1-2-3, ele ficou possesso e, como castigo, me fez resumir, em duas páginas, toda a obra de Keynes. Que, acredito, foi um cara meio prolixo, já que precisou de 300 páginas para teorizar o que eu, aparentemente, era capaz de explicar em apenas 20 parágrafos. Quando eu finalmente pensei que seria libertado, fui comunicado de que haveria uma extensão de minha pena, um troço chamado "pós", sem o qual eu não conseguiria desembarcar no futuro. A diferença entre a "pós" e o curso de graduação foi que na "pós" eu tive de dissertar sobre a obra de Keynes numa monografia de 500 páginas - o que significava que ele, além de prolixo, agora precisava de minha ajuda para explicar melhor seus conceitos econômicos. A "pós" mudou meu status de neoprofissional do futuro, porque dali em diante eu estaria autorizado a apelidar meu período escolar de "background acadêmico", o que já me garantiu meu primeiro estágio. A empresa, uma potência, ávida por "inserir os novos talentos potenciais no ambiente participativo", me chamou para assistir uma reunião. Fiquei impressionado, porque o pessoal ali falava de coisas como "fisiologia da informatização plena" assim como quem pede um picolé de morango. E eu lá, quietinho... Até que um diretor da empresa resolveu me "dar uma oportunidade para compartilhar a vasta teoria" que eu havia adquirido. Era a minha grande chance, mais cedo do que eu pensava, de pavimentar a estrada do meu futuro. Abri minha pasta, tirei a lista das capitanias hereditárias, uma coleção de anacolutos, a tábua de logaritmos, algumas raízes quadradas em bom estado e meu calhamaço keynesiano, e fiz aquela cara de quem havia acabado de conseguir o visto de residência permanente no futuro. E então o diretor da empresa me perguntou: - "Você considera viável desenvolvermos um software que nos permita monitorar nosso footprint de logística integrada, ou seria melhor partimos para um network online de franquias comerciais setoriais?" E eu, obviamente, do alto do meu insofismável cabedal, respondi sem hesitar: - "Veja bem, vamos supor que Joaquim tenha 18 bananas..." 



Fonte: Revista da Web, São Paulo, a. 1, n. 6, p. 136-137, 2000.

Terça-feira, Janeiro 17, 2012

preguiça

As pessoas não me conhecem. Acho que nem eu me permito conhecer. Por assim ser, sinto-me sempre colocada a prova, como se estivesse sendo testada, inclusive pelos mais íntimos. Parece que a grande curiosidade é saber o que de fato pode me revoltar, me fazer gritar e comprometer minha tranquilidade. Os íntimos se divertem quando meus olhos saltam. Os conhecidos sonham com esse momento, imaginando que devo ser muito engraçada quando brava. Há quem diga que pareço um demônio, mas acho que não chega a tanto, acho que é mais divertido do que assustador.

Me irritar é fácil, isso até eu sei. Me magoar, mais ainda. Qualquer atitude dita pequena aguça minha imaginação, traz a tona coisas passadas e me causa um tremendo embrulho no peito. Ninguém conhece a dimensão da minha sensibilidade, nem eu mesma. É por isso que sou de poucos amigos, poucas conversas e muitas lembranças. Um poço de sensibilidade somado a uma imaginação fértil. O relacionamento acaba se o outro não segurar as pontas. A amizade esfria se o outro não segurar as pontas. Sempre o outro, porque tenho preguiça de me explicar, justificar, concertar, enfim, preguiça de pessoas -e de animais também, vale lembrar. Sempre o outro, porque eu tenho preguiça de mim mesma.

Quarta-feira, Dezembro 21, 2011

Três garrafas


Julia levantou-se sonolenta, o relógio anunciava seu atraso. Amarrou as sacolas a fim de colocá-las na lixeira antes de iniciar suas tarefas diárias, deduziu que o caminhão passaria em breve, afinal, era sempre assim, toda segunda pela manhã os lixeiros a acordavam. Enganchou todas as sacolas nos braços e as levou. Ao abrir o portão, notou que havia três garrafas de água cheias e em pé sobre a lixeira. Sem questionar a causa daquilo, as afastou e empilhou as sacolas como pôde.

Lavou as mãos. Esquentou a água para o café. Tomou banho. Vestiu-se. Caprichou na maquiagem. Trocou de roupa. E trocou de novo. Escolheu a sandália. Colocou um tênis. Esqueceu da água. Desistiu. Tomou café velho. Escovou os dentes. Retocou o batom. Saiu.
[...]

Chegou. Hora de almoçar.

Todas estavam reunidas em volta da mesa quando a avó perguntou sobre quem havia arrumado o lixo. Julia levantou o braço sem se dar ao trabalho de respondê-la verbalmente. Desesperada, a avó gritou:

“e as garrafas?”
“que garrafas?”
“as três garrafas que estavam na lixeira”
“não lembro!”
“não tinha nada quando você colocou o lixo?”
“acho que sim, não lembro vó!”
“meu Deus minha filha! Tinham três garrafas cheias e afastadas uma da outra, bem arrumadas”
“qual é o problema?”
“deve ser feitiço! Você não poderia encostar, esqueci de avisar e, se precisasse encostar, tinha que ser com a mão esquerda, para não pegar o feitiço”
Julia riu.
“você brinca com tudo. Não acha estranho aparecerem três garrafas cheias da noite para o dia?”
“não, elas podem ter esquentado no carro de alguém, sei lá...”
“três? Exatamente três? O número do azar”
“não era treze o do azar?”
“tudo que tem três!”
“alguém tomou aquela água?” perguntou Cintia, mãe de Julia, entrando na discussão.
“Não” responderam
“então ta tudo bem!”
“por que, mãe?”
“isso é coisa da Vânia, ela deve ter colocado veneno nessas águas, quer me matar para ficar com seu pai”
“veneno? Ela fez macumba! Quem é que iria tomar águas largadas no lixeiro?” insistiu a avó
“ela sabe que eu cuido do jardim pela manhã e sempre levo minha água, ela pensou que eu me confundiria. Ainda bem que os lixeiros passaram antes, eu sempre coloco minha água ali e bem que vejo que ela me observa do outro lado da rua. Foi Deus que me salvou dessa!”
“mãe! A Vânia pode ser uma vagaba, mas não é uma assassina né? Menos!”
“você não sabe do que ela é capaz” argumentou Cíntia
“foi macumba, boba! Feitiço pro João não fazer mais nada com você”
“então se eu pegasse era meu namorado que não faria comigo, vó?”
“você anda fazendo isso menina?”
“não mãe, ela está brincando. Era veneno”
“Feitiço”
“Esquentou no banco de algum carro”

João chegou atrasado para o almoço.
“qual é a pauta da reunião?”
“garrafas de água na lixeira” respondeu Julia.
“essas que os meninos da frente deram de deixar quando vão jogar bola na rua?”


Terça-feira, Dezembro 13, 2011

um diferencial

 “O problema do meio ambiente está no consumo. Todo mundo troca de celular e não se preocupa em saber o que é feito com a bateria”



“Todos nós temos direitos iguais. Eu escolhi me casar com um homem, mas se meu filho escolher outro homem, normal, ele é livre para isso, será a escolha dele.”



Generosidade é uma das características do nome Indiana, segundo este site. Não que eu seja preocupada com significados de nomes e acredite que isso interfira na personalidade das pessoas, entretanto, Indiana sugere um significado profundo, uma escolha cuidadosa e acaba exigindo mais ainda quando se associa o nome a sua “proprietária”.

Autora das frases que citei acima, Indiana, minha aluna durante o ano todo, me conquistou sem nenhum esforço, não precisou rasgar elogios e distribuir carinhos como fazem a maioria dos alunos. Autêntica, da turma do fundão, lançava, a cada explicação/discussão, um olhar completamente seduzido pelo conhecimento. O encanto pelo saber está visível em seus olhos quase sempre acompanhados de um sorriso sereno.

Integrante do projeto Mulheres da Paz, de São José dos Pinhais, Indiana tem uma visão de mundo apuradíssima, diferente dos demais alunos e surpreendentemente superior a muitos professores, doutores, artistas. Afirmo tudo isso porque durante o precioso tempo que passamos juntas, percebi que  não é só discurso, notei que é pura lá na raiz, tem os olhos desvendados para o mundo, para os problemas do mundo; é desprovida de preconceitos contra qualquer tipo de crença, opção sexual, gênero, cor, raça etc. Não impõe o que pensa a ninguém, escuta, respeita e, se não aceita, ri harmoniosamente, sem desmerecer, brincar, irritar.

Extremamente perspicaz em suas observações, fez com que eu, por muitas vezes, reconhecesse minha ignorância diante dela, por achar que jamais argumentaria como ou, até mesmo, por nunca ter olhado para as coisas da maneira que ela olhou.

Apresento essa incrível mulher aos meus leitores porque tenho certeza que um dia vocês irão ver seu nome por aí, não tenho dúvidas de que a Indiana fará história, afinal, ela só está começando e eu juro que não estou exagerando, é uma guria de outro mundo mesmo, não parecer ter nascido no meio dessa gente mesquinha e careta, não parece fazer parte de um universo onde pensar é o que menos importa para a maioria das pessoas, no qual a ação depende da imposição, implícita ou não!

Ela não tem preguiça e eu me orgulho por ter feito parte do seu universo, certamente, aprendi mais do que ensinei!

Domingo, Novembro 20, 2011

sobre a doença que não me contamina

todos foram tão cretinos quando elas se beijaram” Gessinger

Uma das coisas que mais me incomoda é reconhecer, em determinadas situações, minha limitação enquanto formadora de opinião. Não consigo tirar da cabeça dos meus alunos – e muito menos das dos colegas professores – o preconceito em relação aos homossexuais. De todas as faces do preconceito, talvez essa seja a que mais me incomode, pelo simples fato de que meu corpo não é de deus, não é dos meus pais e muito menos da sociedade. Meu corpo é minha propriedade, eu decido o que fazer com ele e só eu sei pelo que sou atraída, não é você quem vai determinar isso.

As pessoas se incomodam com a opção do outro, regridem pensando que é uma questão de influência, de educação, tentam descobrir se é genético e há quem diga que é doença gostar de alguém do mesmo sexo. Doença é sofrer por preconceito vitimando o outro, por ser incapaz de conviver com a diversidade. Doença é se fechar na própria caverna, cegar por opção.

Gostaria de,devido a minha profissão, conseguir curar algumas dessas doenças, mas os mesmos adolescentes que se dizem diferentes, autênticos e declaram não se importar com o que pensam a respeito deles, vivem em função do pensamento do outro, do pensamento preconceituoso dominante e têm uma resistência muito grande aos homossexuais. Aqueles que são, escondem, não assumem e ainda censuram os assumidos. Os que não são, se acham normais. Quem foi que disse que ser heterossexual é ser normal? E com que propriedade? Felizmente existe uma minoria que não é doente e pela qual tenho um carinho especial.

Há quem pense que a opção sexual é contagiosa e não perceba que a única coisa que pega nisso tudo é a homofobia, doença dos ignorantes. Devido a pandemia, é preciso tomar muito cuidado para não se contaminar, caso isso ocorra a cura é quase impossível. Os lugares mais infectados são as igrejas, os grupos de moralistas, de covardes que nunca tiveram coragem de sair do armário e, vale lembrar, as escolas, porque é lá que estão pessoas de todos esses lugares reunidas e misturadas. Vale lembrar também que existem pessoas que frequentam todos esses ambientes e não se contaminam, mas esses possuem um antídoto raro que faz com que não vejam diferença nenhuma entre um hetero e um homossexual e por isso não discriminem os segundos, faz também com que não sejam influenciadas por meras opiniões. Trata-se de um antídoto que não está a venda, é gratuito, mas pressupõe que o indivíduo tenha disposição, boa vontade e aquilo que deveria ser inerente ao ser humano, o respeito.

Se você se sente meio ou absolutamente doente, abra a cabeça, o coração, adquira o antídoto e torne-se uma pessoa saudável.

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