(des) culpa!

  Apesar de ser amante das palavras, sou avessa às desculpas. Gosto da palavra que expressa sentimento, constrói poesia, elabora dor, afeto. A palavra que se impõe como pedra, acreditando tapar um buraco quando não passa de um alívio covarde da culpa, me incomoda profundamente.

    Sou uma força da natureza. Quando silencio, é porque essa força está revirando minhas vísceras. É porque por excesso de prazer fui anestesiada ou de dor, dilacerada. Neste caso, pergunto-me: como pode o outro achar que após me violentar, basta renomear a violência, chamá-la de cuidado?

    O discurso do cuidado, nos aspectos que tem ocupado minha vida, me enoja porque sei que não passa de controle, dominação e manipulação. Me questiono se ele caberia no meu leito de morte se, sóbria, mas dilacerada, eu optasse por acabar com tudo num desses frequentes momentos em que acho que não vou aguentar. Gostaria de assistir de camarote as lágrimas de quem mata, mas para isso precisaria me permitir puxar o gatilho pelo outro e estou tão viva, tão apaixonada que sou capaz de levantar, ainda que cambaleante, juntar alguns cacos e dizer não. Não aceito tamanha covardia, não reconheço isso que você chama de amor.


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