O presente
Lembro-me de meu pai nunca chegar da rua com algum doce, brinquedo ou qualquer outra coisa que anunciasse que pensou em nós, as filhas, enquanto esteve fora de casa. Lembro também que minha mãe cobrava isso dele e, como resposta, obtinha o argumento de que caso ele fizesse isso uma vez, teria que fazer sempre, pois criaria em nós, crianças, tal expectativa e nos desapontaria no dia em que não pudesse cumpri-la, por falta de dinheiro ou tempo, duas palavras que, aliás, sempre ocuparam o cerne de discussões, desentendimentos e justificativas. Ele nunca tinha tempo para brincar, sair, viajar ou fazer qualquer outra coisa além de trabalhar porque tinha que ganhar dinheiro, muito dinheiro. E até hoje não aceita que tenhamos tempo para essas coisas, porque acredita que temos que ganhar dinheiro, muito dinheiro. Excesso de ambição e prevenção. Medo de não o ter no momento da real necessidade.
Só mais tarde descobri que, carente, meu pai queria que, desde pequenas, gostássemos dele sem que tivesse que nos “comprar”. O apego ao dinheiro o fez paranoico a ponto de crer - e nos ensinar - que todas as relações são de interesse financeiro e, paradoxalmente, a ponto de não contribuir muito para a nossa independência financeira para, pasmem, continuarmos dependendo dele, pois pensa que é isso que nos mantém próximos. Mal sabe ele que não suporto seus discursos pré-mão no bolso. Graças ao meu trabalho me livrei dessa, minha irmã, ainda não.
Como se não bastasse, ele não liga para presentes. Eis a razão da ausência deles por espontânea vontade quando éramos crianças e ainda hoje. Eis a razão da falta de romantismo com a minha mãe e das consequentes frustrações dela. Mulheres gostam de homens que paguem a conta e a surpreendam com presentes. Não me excluo do grupo, gosto que adivinhem o que combina comigo, que escolham criteriosamente algo que possa me agradar. O que importa mesmo não é o presente em si, mas o processo, que vai desde a sofrida escolha até o proveniente sorriso de satisfação. É saber que alguém quis lhe agradar e não apenas cumprir uma obrigação.
Não faz sentido escolher um presente para o meu pai, pois ele não reconhece esse processo e nada o agrada. O agradecimento é sempre o mesmo, quando se dá ao trabalho de abrir o presente, porque se não dissermos “abra”, nem isso faz..; “camisa de novo?”; “iiii, já tenho tanto perfume”; “legal, mas aonde vou usar isso?”; “pra quê gastar dinheiro? Já tenho”; “não uso” e assim por diante. Nunca acertamos. Sempre nos magoamos.
Não compramos um presente para o outro, mas para nós. No fim das contas nós é que temos que sair satisfeitos, com a certeza de que atingimos o objetivo, de que acertamos na escolha. Uma demonstração de afeto que, sem o retorno positivo, é em vão. Queremos que o outro pense que sabemos direitinho do que ele gosta e até mesmo precisa. Que ele escancare sua satisfação, fundo de gaveta é o mesmo que desprezo, tem que usar, mostrar para amigos e familiares e dizer a todos que, nós sim, o conhecemos.
Acertar na escolha do presente é provar intimidade. É por essa razão que as listas de presentes são absolutamente inúteis. Quem compra não sofre e quem ganha não se surpreende. Listas são o corte do processo, da magia.
Ainda espero que as pessoas cheguem da rua com alguma coisa para mim, sou fascinada por presentes, as provas concretas de lembrança. E espero que façam isso por espontaneidade.
Aprendi a não me magoar com meu pai por não ligar para presente. Reconheço que, afinal, esteve sempre muito preso ao passado e focado no futuro.

Comentários
Triste de quem não sabe dar e receber presentes. Mais triste ainda é quam não sabe ser presente.
Adorei seu lugar!
Bjs!
Obrigada pela visita,
bjs
Meu pai, bem ao contrário do seu, sempre me deu muita coisa. E não há um dia da minha vida q ele não jogue isso na minha cara. Direta ou indiretamente. E ele quer mais é que a gente fique logo o mais independente possível - e dê retorno. Acho q pra ele, filhos são investimentos...rs
Beijos!!
E concordo contigo!
Eu presenteio,
porque AMO presentear!
Nada melhor
que agradar
a quem amamos...
Um beijo,
Doce de Lira
Renata, valeu =)
Eu também AMO presentes =D.
Graças ao pai arrumei uma pessoa que adora presentear!
Também adoooro presentear, faço isso sempre que posso.
Mas sabe, agora olhando o que você escreveu, minha mãe me presenteia hoje em dia, mas quando eu era criança a coisa acontecia em casos muito raros, quase nem existia.
Dia das crianças por exemplo, nunca ganhei presente, e até no meu aniversário, ela esquecia a data! Mas aprendi a sobreviver assim.
Meu pai tbm esquece as datas, tem que pedir..rsrs
Daiton, minha desenvoltura para escrever não se deve ao investimento na educação, pois não aprendi a escrever na faculdade, já tinha desenvolvido essa habilidade antes, na escola pública, quando que, por sorte, cruzei com professores que prestaram e não necessariamente pelo investimento do meu pai que, financeiro, só foi na faculdade e ainda me jogando isso na cara todos os dias. De qualquer forma, embora pareça revoltada, sou grata a ele por muita coisa e você sabe disso! Mas também tenho muitas mágoas
"Não me excluo do grupo, gosto que adivinhem o que combina comigo, que escolham criteriosamente algo que possa me agradar. O que importa mesmo não é o presente em si, mas o processo, que vai desde a sofrida escolha até o proveniente sorriso de satisfação.": Complexo de Cinderela.
Quer se sentir bem? Corro para o cinema, vá ao shopping e "se dê" um presente. Torne-se o seu melhor amigo.
=)
Quando me refiro aos presentes, é exatamente deles q estou falando e não de um recurso imprescindível para fazer com que eu me sinta bem. Portanto, ir ao shopping e me presentear simplesmente não faz sentido, porque não é essa a questão, não tem graça, o bom é receber coisas quando menos se espera e conseguir agradar alguém com um presente que vc escolhe! Ah,não falei mal do meu pai, apenas relatei traços da personalidade dele.
-)