Corpo


Meus pés insistem na instabilidade 

do mergulho interior. 

Tombam quase que naturalmente 

na urgência constante 

do recolhimento. 

Falta arco e vontade

Falta sustento.

Sou só flecha desarmada que fere e indifere.


Quando fincam-se para a pelve ancorar

por lágrimas sou inundada

As raízes que ganham força, tortas

misturam-se com as mortas

e com aquelas que se despedaçaram

por não conseguirem (me) suportar.

Talvez, ir para fora sugira ser atravessada

Talvez, tombar para dentro seja duro, mas seguro


Estes pés que bambeiam  

suportam joelhos que gritam 

o cansaço de não querer sair de dentro

sequer para encontrar o centro

mas me ver sempre forçada.

Eles trazem a exaustão de um não recuar

de quem se viu arrebentada 

mas escolheu continuar


De quem se vê no chão

mas não aguenta levantar 

porque pesa.

E como pesa! 

Mais do que vocês aceitam

Mais do que consigo desejar. 

Como sobra esse corpo. Como, de repente 

o todo se resume a parte que me parte


Porque cresce como se gerasse um ser, 

Mas sem possibilidade de uma nova vida. 

Só a mesma que cobra

e se desdobra 

em raiva, aversão e vontade de morrer 

ganhando forma desmedida

projetada para frente 

com a ajuda da coluna que tensa, compensa


Uma barriga que sabe

o quanto não cabe. 

Prestes a parir um terremoto (1)

assustadoramente violento.

Essa parte me trava e esmaga.

Esqueço tudo que faço transbordar

Essa parte me estraga. 

Esqueço que acolhi órgãos e a potência de sangrar. 


Já não sei se esqueço ou me entrelaço

no embrulho

da cobrança não autorizada 

mas igualmente exercida. 

Perco-me no caminho que traço.

Paro no horror do espelho. 

Descubro três culpas:

Não me encaixo. Quero me encaixar. Não supero.


Fico. 

Não consigo subir 

e acessar o peito 

que vomita ressentimento

que expira num soco

e mal sabe conduzir

uma inspiração profunda.

Fechado na mágoa que deságua.


O sangue quente me devolve

o que me envolve 

Deixo ir a parte que me corrói

(Des)agarro porque dói

Mas deixo morrer...

Um pouco, talvez.

Tão pouco! Posso ser?

Aos poucos, dessa vez.


Trago nos braços flores que se devoram 

e uma Selvática que "come a selva de fora 

e vem da selva de dentro".(2)

No íntimo, meu encontro.

Sou boca e dentes que se apertam 

afiando a língua

que também não cabe.

Olha, ri e desafora

Às vezes escapa, outras ataca.


Sou esse desejo de comer o mundo 

por prazer, por ódio 

E a dificuldade em digerir.

Sou ainda capaz de sentir e partir.

Porque escrever é como gritar

o lado imundo

que necessito expurgar.

Como criar beleza com estranheza.


Na cabeça não preciso chegar

Ela está em todo lugar.

Nos pés que desabam

nos joelhos que fraquejam

na pelve potente

na barriga latente

no peito carregado

nos braços pintados.


Sou um corpo que devora

uma mente que acha que controla

mas me desmonta

e remonta.

Parece gostar de fundir

para em seguida expandir

E, enfim, queimar

para ressurgir e (me) fascinar.



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1. referência a música Grávida de Arnaldo Antunes e Marina Lima.
2. referência a música Selvática de Karina Buhr

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