sobre corpo que pulsa e morre - mais uma vez

No último texto que publiquei, procurei desenvolver uma reflexão sobre a nossa responsabilidade nas 14 mil mortes por Covid-19 no Brasil. Hoje, três meses depois, ultrapassamos 100 mil e nada foi feito. Mas não é exclusivamente sobre isso que escrevo e sim sobre compreender o corpo que pulsa e morre por meio das questões: Quem se importa? Quem importa? Que importa? 

Assim como os caracteres que diminuem a cada pergunta, sabemos que a vida também se esvai a cada passo, seja ele dado ou não. Não deixar morrer me parece uma forma de sugá-la rápida e violentamente. Não me refiro ao genocídio que citei acima e nem a nenhuma outra categoria dessa morte que assombra a maioria das pessoas, mas aos nossos processos que precisam acontecer para que possamos recomeçar, continuar, vibrar. Podem ser relacionamentos, a maneira como nos conectamos conosco e com o outro, pessoas, manias, trabalho, sonhos, mágoas, espaços. Pode ser muita coisa. Mas, esse deixar morrer ou escolher morrer, embora faça parte da vida, raramente é encarado com naturalidade. 


Encerrar um ciclo, fechar as portas para o que já não pulsa, é uma alternativa vista pela maioria como egoísta e que, portanto, demanda muitas obrigações. Você tem que comunicar, dar satisfações, elencar motivos, ser autorizada. Primeiro, porque é preciso afastar a possibilidade de egoísmo já que este é a representação do demônio na terra da nossa civilização puramente altruísta. Segundo, porque sentir não basta, é irrelevante, requer justificativa racional, como se a vida fosse lógica e fizesse sentido dentro de uma estrutura argumentativa, quando não faz sequer no âmbito existencial. (não estou sugerindo aqui uma irresponsabilidade afetiva, mas afirmando que sermos honestos sobre e com o que sentimos na maioria das vezes não é suficiente).


Quando o corpo insiste no que já não deseja, começa a se deteriorar, mas esse processo é socialmente aceito, suas partes são compreendidas e tratadas isoladamente com pílulas e procedimentos específicos. Aparentemente, adoecer faz mais parte da vida do que viver, pois quando nos movemos em direção ao que queremos, movemos também a culpa, uma vez que o deixar morrer é constantemente traduzido como um abandonar. Entretanto, quando se trata de desistirmos de relações ou sujeitos descobrimos que, muitas vezes, estamos desabitando um terreno que nunca foi seguro para fincar os pés.


Recentemente fui diagnosticada com uma lesão no quadril, após um mês de investigação acerca das possíveis causas de uma dor limitante que vinha sentindo e chegou, inclusive, a me impedir de dormir, cozinhar, lavar pratos etc. Eu reclamei dessa dor e também a acolhi de uma maneira muito profunda e intensa. Acreditei que não voltaria a dançar, entrei em desespero por precisar fazer minha comida de cócoras, pensando que a realidade seria isso ou depender de alguém, ouvi da médica que meu caso poderia ser um encosto, entre outras coisas que tornaram meus dias e noites difíceis. Todavia, também busquei compreender o significado de tamanha tensão, identificar meus nós e, com muita dificuldade-porque nunca é fácil e simples, pensar em formas de desatá-los, de deixar ir. Mas, quem se importa com tudo isso? 


A resposta veio antes da elaboração da pergunta. Longe de querer reproduzir um clichê, mas ciente de que é quase inevitável, é quem se fez presente no momento da dor, quem assumiu a responsabilidade sobre meu corpo e buscou comigo a cura, seja me levando aos lugares, se oferecendo para bancar meus exames, procurando profissionais, indicando, me ouvindo e acolhendo com respeito. Todas essas pessoas e há quem seja todas, antes que eu me questionasse já estavam dizendo que eu e minha dor importamos. 


Quando revisito cada uma delas, percebo que quero estar perto, desfrutar de suas existências inundadas de beleza. Aquela beleza de quem cria, se contradiz, voa e cai. Dos que transbordam escuta, sabedoria, colo, afeto. A beleza de quem mergulha nos meus olhos com prazer e cautela e se joga no mundo com o que tem. Dos que (se) afetam. Dos que já me viram e fizeram chorar, rir, suar. De quem é coração e pele.

 

Finalmente entendo que com esses sujeitos sou corpo que pulsa. De raiva, prazer, alegria, indignação. Pulsa porque discorda e por finalmente se sentir compreendido, pelo pertencimento, por transitar por diversos temas e problematizações. Pulsa porque quer eternizar uma pequena troca, porque o encantamento é tamanho que desejo reunir todos no mesmo espaço e incorporar suas partes no meu todo. 


A frieza de quem não se importa, de quem joga e não quer se deixar sangrar, mas apenas permanecer no conservadorismo raso, ainda me assombra, mas tenho trabalhado para que não me abale, para que eu possa empregar minhas energias no prazer de dividir a experiência, os aprendizados e a cura da dor com quem arrepia a qualquer sopro e mergulha fundo, para mexer, descobrir, se esconder, silenciar.


Sou um corpo que morre sempre que se dá ao trabalho de manter as superfícies incapazes de suportar meu peso, sempre que não consigo deixá-las morrer.


Quem pulsa e me faz pulsar é o que importa e deveria fundamentar todas as minhas relações, mas sabemos que existem as convenções para matarmos natural e quase que diariamente.


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