Sua necessidade já matou 14 mil
Provavelmente quando você ler este texto, já serão mais de 14 mil mortos por Covid-19 no Brasil. Sabemos que o Bolsonaro no poder e todos os seus seguidores, são determinantes para que tenhamos um contexto tão triste, desumano e irresponsável. Mas, será mesmo que são os únicos com sangue nas mãos?
Durante as últimas semanas, reli um texto da Eliane Brum que costumo citar nas aulas de Ética, Meu filho você não merece nada. Meu primeiro contato com ele foi através do livro A menina quebrada (2013), da mesma autora. Desde então, nunca mais deixei de pensar nele e nesse momento que vivemos ouso, de uma maneira bem pretensiosa, dar continuidade a reflexão proposta por Eliane (por isso recomendo que leia o texto dela antes) e afirmar que sermos uma geração mimada, que não aprendeu a lidar com frustrações, nos transformou em assassinos.
O número de pessoas que abraçou nas redes sociais a campanha Fique em casa e que fica escandalizada com as declarações do nosso presidente, é bem grande. No entanto, as ruas estão cheias e não apenas de trabalhadores, de quem precisa efetivamente estar lá ou dos aproximadamente 30% de bolsonaristas. O movimento é bem maior, a proliferação do vírus é absurda e, portanto, a conta não fecha. Ora, é evidente que tem hipócrita não fazendo o que prega.
Brum se refere a uma geração de classe média, mas eu incluo aqui também os que estão um pouco abaixo (muitas vezes até acham que são classe média) e nunca passaram fome, precisaram trabalhar para ajudar no sustento de casa e cresceram, com um pouco mais de dificuldades, mas assim como a classe média sem saber criar a partir da dor. Faço parte desse grupo também, assim como maior parte das pessoas que convivo. Fomos e somos poupados, nosso salário nunca interferiu no orçamento da família, pudemos estudar ouvindo que isso era prioridade e por isso somos os que casam e os pais continuam “ajudando” ou simplesmente descobrimos que não damos conta de relacionamento e casa. Nós, os despreparados, somos muitos.
Não saber lidar com as frustrações faz com que os que chamo de hipócritas criem numerosas necessidades. Primeiro, porque se é uma necessidade, então não há culpa, não se está contrariando uma norma - embora a consciência moral acuse o erro, pois na maioria das vezes não postam os furos que cometem. Segundo, porque acreditam que realmente precisam dessas escolhas para viver, o que está ligado a ideia de felicidade como um direito inato e, assim, flertam com a morte.
Portanto, precisam visitar parentes e amigos porque não aguentam ficar longe, porque não aguentam mais ficar em casa e ainda justificam apresentando uma das contas mais infundadas que já vi: isolado com isolado resulta em negativo para Covid-19. Entretanto, não existe um isolamento, quase todos estes estão indo aos mercados, bancos e até em consultas médicas de rotina. Como se não bastasse, surge também uma urgência em fazer exercícios nas ruas, comprar presentes e entregar pessoalmente com lágrimas nos olhos, porque afinal de contas é uma forma de substituir os abraços proibidos. Há quem precise também fazer as unhas, pintar e cortar os cabelos porque “não dá para ficar assim” e tantas outras coisas justificadas com: eu preciso, eu não aguento, eu vou morrer se não fizer.
Sugiro que olhem para todas as suas necessidades e reflitam se de fato o são, se tudo o que você diz que precisa fazer é fundamental para garantir a sua sobrevivência e a de seus familiares ou se é apenas incapacidade de lidar com as frustrações da vida e consigo.
No fundo, os hipócritas gostam do espetáculo da tragédia, de chorar, lamentar, mas acreditam que são bons o suficiente para não carregarem mortes nas costas, que não perderemos os nossos e pessoas como eu não passam de chatas radicais. Sinto muito amigos, o vírus está aí, vocês estão matando desconhecidos e a possibilidade de matar os seus não é pequena, é importante que tenham essa consciência.
Como escreve a Eliane, “viver é para os insistentes”. Lamento que uns poucos tenham que insistir exaustivamente por conta dos muitos que não aprenderam nada sobre responsabilidade. Lamento as muitas vidas que perdemos.
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