Meu corpo, minhas regras!: Uma reflexão sobre meu processo de autoconhecimento corporal por meio da alimentação
referências da imagem: https://www.facebook.com/guimaraesmc.med/photos/a.1286328621464784/2269425603155076/?type=3&theater
Em março iniciei um Programa de Autoconhecimento Corporal com
duração de 50 dias, oferecido, planejado e acompanhado pela profissional Maria
Carolina Guimarães do Comida
e Afeto: alimentação com efeito. Boa parte das minhas
amizades e pessoas próximas preferem acreditar que o motivo foi exclusivamente
a busca pelo emagrecimento (inclusive perguntam por quanto tempo vou continuar
a dieta), foi também e isso teve a mesma relevância que a saúde na minha
decisão. Mas, há cerca de um ano tento reduzir o consumo de carne porque
sei o quanto ela é prejudicial à saúde* e, do início do ano pra cá, sofri crises
recorrentes e violentas de gastrite, o que foi determinante na minha busca por
uma reeducação alimentar diferente das convencionais, ou seja, baseada na
alimentação natural. É aí que entram: Maria Carolina, a sociedade
capitalista patriarcal em que vivemos e a autonomia sobre as regras do próprio
corpo.
A escolha de quem irá segurar a nossa mão em uma decisão tão
difícil, é fundamental. A minha foi baseada em confiança e admiração por uma
mulher, amiga e profissional -e não me arrependo, pois ambos os sentimentos só
cresceram. Como ela afirma: “pessoas cuidam de pessoas, indústrias não!”.
A Maria Carolina dedicou praticamente dois meses de paciência e cuidado que
ultrapassam a disponibilização de receitas e criação de cardápios. Durante esse
período, exigi tempo e muita energia dela, tanto que meu namorado brincou que
ela iria me bloquear quando findasse a rotina, o que obviamente não ocorreu.
Quando comecei o programa, a Maria Carolina me alertou sobre as
dificuldades que eu enfrentaria, mas não citou quais. Imaginei que seriam
relacionadas a minha determinação e quanto a isso não tenho problemas.
Entretanto, estava enganada. Não por acaso, o programa é intitulado “Autoconhecimento
corporal”. As primeiras foram fisiológicas, senti muitas dores de cabeça e
indisposição no processo inicial de tirar alguns alimentos e com isso liberar
toxinas. Também apareceram infecções que hoje acredito que dormiam em meu
corpo, esperando para sair. Então, foi um período de dor e um certo desespero
porque esse é o momento que as pessoas lhe dizem que você está no caminho
errado e eu, sabendo que estava no certo, mas sem entender muito o
funcionamento, me perguntava: “por que tudo isso acontece justamente quando
resolvo me cuidar?”
Em seguida e talvez mais duras, foram as dificuldades sociais,
quando pude perceber o quanto nossas relações com o outro estão pautadas na
alimentação e, claro, alimentação a base de carnes, álcool, lanches,
industrializados. Identifiquei também o quanto careci de bom senso, empatia e fui
invasiva ao questionar opções das outras pessoas ou dizer a clássica:“um
diazinho só não dá nada!”, sabotando o processo alheio sem o menor
entendimento do quanto esse diazinho é significativo.
A relação que temos com a comilança e sobretudo com a carne
é assustadora. No momento em que escolhi ressignificá-la não sabia, mas escolhi
também resistir socialmente a diversas tentativas de me jogar na indústria do
consumo não pensado, não problematizado e desenfreado que eu mal havia começado
a romper. Era gente colocando em dúvida o método da Maria Carolina o tempo
todo, direta ou indiretamente com questionamentos, afirmações e até mesmo ações
que enfatizavam o quanto minha opção estava me destruindo- aos olhos dessas
pessoas, é claro.
Um pouco antes de iniciar a segunda rotina (o programa é dividido
em duas), tive uma infecção urinária e, além do antibiótico, a Maria Carolina
optou por uma alimentação antibiótica, o que incluía passar dez dias sem
consumir carne, álcool, pães e café. O mais difícil de sobreviver a esses dias,
foram as pessoas e não a ausência das bebidas e alimentos que citei. Primeiro,
em relação ao álcool, menti que não podia devido ao antibiótico, pois assumir
que fazia parte dos dias de limpeza do organismo e, portanto, era uma escolha diferente
da convencional seria, para as pessoas, menos aceitável do que estar doente.
Quando você justifica com doença/remédio, ok; mas quando admite que é uma opção
sua, nada ok.
Ainda sobre as relações, absolutamente todas as confraternizações
envolvem muita comida que não quero classificar como boa/ruim, prefiro afirmar
que agridem o estômago e o corpo quando o que você busca é saúde e redução de
gordura. O que senti foi muita dificuldade de estar inserida nesses espaços,
não porque considere que as pessoas devam se curvar às minhas decisões, mas
porque as escolhas convencionais não são questionadas e são impostas e, com se
não bastasse, as pessoas não aceitam que você opte por não se entupir e seguir
outro caminho, mesmo que você não faça nenhum comentário a respeito.
Como se não bastasse a falta de acolhimento que apontei, há um
comportamento que foi naturalizado na nossa sociedade e é o motivo da escolha
do título para esse texto: a invasão dos indivíduos sobre os corpos das
mulheres. Que bom seria se “meu corpo, minhas regras! ” tivesse como questão e
pauta apenas a nudez do corpo feminino, penso que seria mais fácil de
“resolver”. Vai muito além disso e preciso dizer: Amigas e amigos, não é legal
receber seus comentários sobre meu corpo, especialmente quando completamente
descontextualizados (quase sempre),sobre o quando emagreci e estou bonita! Não
me sinto confortável, não recebo como elogio, é como se vocês estivessem me
despindo sem minha autorização. É invasivo, incômodo, constrangedor. Sinto-me
como se fosse apenas um corpo a serviço de todos vocês, sob avaliação e julgamento constantes. O peso de pessoas normais oscila e, quanto a mim, já existe culpa
suficiente por ser uma feminista que, apesar da auto estima elevada, ainda não
chegou no nível de aceitação do próprio corpo e tem medo de engordar. Descobri esse desconforto nesse processo e sei que falo
por muitas.
Afirmar “meu corpo, minhas regras!” vai muito além de mostrar os
peitos, de ter o direito de transar com quem quiser, demanda um entendimento do
que é o corpo. Esse corpo subjugado durante tanto tempo pela filosofia
ocidental, pelo cristianismo, esse corpo que pensa, sente, que não é,
definitivamente, fraco, inferior a razão, mas também racional. Esse corpo é
constantemente desrespeitado, invalidado, mas é meu e você não está autorizado
a dizer como ele deve ser, o quanto ele diminuiu ou aumentou e o que ele
suporta.
O processo foi muito importante para que eu compreendesse o que me
faz mal e, obviamente, para atingir meu objetivo de emagrecimento. As dores no
estômago agora são bem pontuais, quando exagero no álcool, carne e frituras. A
reeducação me possibilitou identificar as causas e me permite a recuperação de
forma natural, com alimentação natural e chás, sem tomar nenhum comprimido, sal
de frutas e afins.
Por fim, considero que estou aprendendo a caminhar, nada é
definitivo e, sendo assim, não posso ditar regras por aí. Entretanto, não tenho
dúvidas de que fiz a escolha certa, de que reduzi significativamente as
agressões contra meu corpo e compreendi, finalmente, o quanto a alimentação é
essencial no processo de autoconhecimento, o quanto está relacionada aos nossos
traumas, emoções, construções. É por isso e também por algumas leituras que não
admito o discurso de que se trata exclusivamente de força de vontade,
principalmente quando nos referimos a emagrecimento. Nós nos autossabotamos o
tempo todo e quando não o fazemos, aqueles que estão próximos se encarregam de
fazer. Portanto, não é simples, mas posso garantir que, quando se cuidar é uma
escolha, o processo é lindo e libertador.
Em tempo, esse relato merece agradecimentos especiais às pessoas
maravilhosas que não soltaram a minha mão: Maria Carolina, amiga e profissional
incrível; amigas Ana Letícia e Eloise, companheiras de compras, receitas,
desabafos e força; meu namorado Aldo e a minha mãe Adarci que ao se abrirem, me
acolheram!
*sugiro que assista “What the Health” na Netflix ou Youtube (dublado/legendado) se desejar abrir os olhos bem de leve!

Comentários
E não consigo deixar de indicar também, assim como a Laís indicou, conheci um programa de Nutrição e Alimentação Saudável...que além do titulo tem terapias alternativas e autoconhecimento. (procure por Viviane Raizer).
Mais uma mulher linda que reencontrei pelo nome e sobrenome...minha memória não me deixa em paz...ou me leva pra ela.