Meu corpo, minhas regras!: Uma reflexão sobre meu processo de autoconhecimento corporal por meio da alimentação



Em março iniciei um Programa de Autoconhecimento Corporal com duração de 50 dias, oferecido, planejado e acompanhado pela profissional Maria Carolina Guimarães do Comida e Afeto: alimentação com efeito. Boa parte das minhas amizades e pessoas próximas preferem acreditar que o motivo foi exclusivamente a busca pelo emagrecimento (inclusive perguntam por quanto tempo vou continuar a dieta), foi também e isso teve a mesma relevância que a saúde na minha decisão. Mas,  há cerca de um ano tento reduzir o consumo de carne porque sei o quanto ela é prejudicial à saúde* e, do início do ano pra cá, sofri crises recorrentes e violentas de gastrite, o que foi determinante na minha busca por uma reeducação alimentar diferente das convencionais, ou seja, baseada na alimentação natural. É aí que entram: Maria Carolina,  a sociedade capitalista patriarcal em que vivemos e a autonomia sobre as regras do próprio corpo. 

A escolha de quem irá segurar a nossa mão em uma decisão tão difícil, é fundamental. A minha foi baseada em confiança e admiração por uma mulher, amiga e profissional -e não me arrependo, pois ambos os sentimentos só cresceram. Como ela afirma: “pessoas cuidam de pessoas, indústrias não!”. A Maria Carolina dedicou praticamente dois meses de paciência e cuidado que ultrapassam a disponibilização de receitas e criação de cardápios. Durante esse período, exigi tempo e muita energia dela, tanto que meu namorado brincou que ela iria me bloquear quando findasse a rotina, o que obviamente não ocorreu.

Quando comecei o programa, a Maria Carolina me alertou sobre as dificuldades que eu enfrentaria, mas não citou quais. Imaginei que seriam relacionadas a minha determinação e quanto a isso não tenho problemas. Entretanto, estava enganada. Não por acaso, o programa é intitulado “Autoconhecimento corporal”. As primeiras foram fisiológicas, senti muitas dores de cabeça e indisposição no processo inicial de tirar alguns alimentos e com isso liberar toxinas. Também apareceram infecções que hoje acredito que dormiam em meu corpo, esperando para sair. Então, foi um período de dor e um certo desespero porque esse é o momento que as pessoas lhe dizem que você está no caminho errado e eu, sabendo que estava no certo, mas sem entender muito o funcionamento, me perguntava: “por que tudo isso acontece justamente quando resolvo me cuidar?

Em seguida e talvez mais duras, foram as dificuldades sociais, quando pude perceber o quanto nossas relações com o outro estão pautadas na alimentação e, claro, alimentação a base de carnes, álcool, lanches, industrializados. Identifiquei também o quanto careci de bom senso, empatia e fui invasiva ao questionar opções das outras pessoas ou dizer a clássica:“um diazinho só não dá nada!”, sabotando o processo alheio sem o menor entendimento do quanto esse diazinho é significativo.

A relação que temos com a comilança e sobretudo com a carne é assustadora. No momento em que escolhi ressignificá-la não sabia, mas escolhi também resistir socialmente a diversas tentativas de me jogar na indústria do consumo não pensado, não problematizado e desenfreado que eu mal havia começado a romper. Era gente colocando em dúvida o método da Maria Carolina o tempo todo, direta ou indiretamente com questionamentos, afirmações e até mesmo ações que enfatizavam o quanto minha opção estava me destruindo- aos olhos dessas pessoas, é claro. 

Um pouco antes de iniciar a segunda rotina (o programa é dividido em duas), tive uma infecção urinária e, além do antibiótico, a Maria Carolina optou por uma alimentação antibiótica, o que incluía passar dez dias sem consumir carne, álcool, pães e café. O mais difícil de sobreviver a esses dias, foram as pessoas e não a ausência das bebidas e alimentos que citei. Primeiro, em relação ao álcool, menti que não podia devido ao antibiótico, pois assumir que fazia parte dos dias de limpeza do organismo e, portanto, era uma escolha diferente da convencional seria, para as pessoas, menos aceitável do que estar doente. Quando você justifica com doença/remédio, ok; mas quando admite que é uma opção sua, nada ok.

Ainda sobre as relações, absolutamente todas as confraternizações envolvem muita comida que não quero classificar como boa/ruim, prefiro afirmar que agridem o estômago e o corpo quando o que você busca é saúde e redução de gordura. O que senti foi muita dificuldade de estar inserida nesses espaços, não porque considere que as pessoas devam se curvar às minhas decisões, mas porque as escolhas convencionais não são questionadas e são impostas e, com se não bastasse, as pessoas não aceitam que você opte por não se entupir e seguir outro caminho, mesmo que você não faça nenhum comentário a respeito.

Como se não bastasse a falta de acolhimento que apontei, há um comportamento que foi naturalizado na nossa sociedade e é o motivo da escolha do título para esse texto: a invasão dos indivíduos sobre os corpos das mulheres. Que bom seria se “meu corpo, minhas regras! ” tivesse como questão e pauta apenas a nudez do corpo feminino, penso que seria mais fácil de “resolver”. Vai muito além disso e preciso dizer: Amigas e amigos, não é legal receber seus comentários sobre meu corpo, especialmente quando completamente descontextualizados (quase sempre),sobre o quando emagreci e estou bonita! Não me sinto confortável, não recebo como elogio, é como se vocês estivessem me despindo sem minha autorização. É invasivo, incômodo, constrangedor. Sinto-me como se fosse apenas um corpo a serviço de todos vocês, sob avaliação e julgamento constantes. O peso de pessoas normais oscila e, quanto a mim, já existe culpa suficiente por ser uma feminista que, apesar da auto estima elevada, ainda não chegou no nível de aceitação do próprio corpo e tem medo de engordar. Descobri esse desconforto nesse processo e sei que falo por muitas. 

Afirmar “meu corpo, minhas regras!” vai muito além de mostrar os peitos, de ter o direito de transar com quem quiser, demanda um entendimento do que é o corpo. Esse corpo subjugado durante tanto tempo pela filosofia ocidental, pelo cristianismo, esse corpo que pensa, sente, que não é, definitivamente, fraco, inferior a razão, mas também racional. Esse corpo é constantemente desrespeitado, invalidado, mas é meu e você não está autorizado a dizer como ele deve ser, o quanto ele diminuiu ou aumentou e o que ele suporta. 

O processo foi muito importante para que eu compreendesse o que me faz mal e, obviamente, para atingir meu objetivo de emagrecimento. As dores no estômago agora são bem pontuais, quando exagero no álcool, carne e frituras. A reeducação me possibilitou identificar as causas e me permite a recuperação de forma natural, com alimentação natural e chás, sem tomar nenhum comprimido, sal de frutas e afins. 

Por fim, considero que estou aprendendo a caminhar, nada é definitivo e, sendo assim, não posso ditar regras por aí. Entretanto, não tenho dúvidas de que fiz a escolha certa, de que reduzi significativamente as agressões contra meu corpo e compreendi, finalmente, o quanto a alimentação é essencial no processo de autoconhecimento, o quanto está relacionada aos nossos traumas, emoções, construções. É por isso e também por algumas leituras que não admito o discurso de que se trata exclusivamente de força de vontade, principalmente quando nos referimos a emagrecimento. Nós nos autossabotamos o tempo todo e quando não o fazemos, aqueles que estão próximos se encarregam de fazer. Portanto, não é simples, mas posso garantir que, quando se cuidar é uma escolha, o processo é lindo e libertador. 

Em tempo, esse relato merece agradecimentos especiais às pessoas maravilhosas que não soltaram a minha mão: Maria Carolina, amiga e profissional incrível; amigas Ana Letícia e Eloise, companheiras de compras, receitas, desabafos e força; meu namorado Aldo e a minha mãe Adarci que ao se abrirem, me acolheram! 

*sugiro que assista “What the Health” na Netflix ou Youtube (dublado/legendado) se desejar abrir os olhos bem de leve!


Comentários

Puxa, Laís Bastos, como sempre amei seu texto! Esse, especificamente, mexe com aspectos muito mal resolvidos em minha vida. Fui magra na infância e adolescência, mas só eu sabia o que sofria para manter o peso. Loucuras, penso hoje. Depois que comecei a dar aulas meu peso desandou, pois não aguentava passar por todas aquelas limitações e ainda ter força para trabalhar em sala de aula. Claro que, como resultado, engordei muito. Hoje tenho muita vontade de passar por uma transformação no meu estilo de vida. Mas falo sempre que não aguento mais essa vida de dietas e oscilações de peso. Eu queria realmente cuidar da minha saúde! Ainda não consegui ter tanta força de vontade, espero que um dia possa. Parabéns por todo o seu esforço pessoal, pelo seu lindo texto (que abrange muitas outras reflexões relacionadas ao corpo feminino) e pela mulher maravilhosa que você é 😍
Unknown disse…
Mais uma linda que achei...Raquel!
E não consigo deixar de indicar também, assim como a Laís indicou, conheci um programa de Nutrição e Alimentação Saudável...que além do titulo tem terapias alternativas e autoconhecimento. (procure por Viviane Raizer).
Mais uma mulher linda que reencontrei pelo nome e sobrenome...minha memória não me deixa em paz...ou me leva pra ela.

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