poema solto

Eu disse: “Cansei!”
“Desisto da sala de aula,mas não da educação.”
E agora, perto da lei
e longe da escola
me pergunto se de fato não.

Eu dizia: “Não quero atuar na Universidade!”
“É na escola que quero estar!”
Mas saí, certa da própria integridade
não muito do que poderia encontrar
encontrei um não lugar

e me mostro não afetada
quando estou esgotada
desacreditada
desmotivada.

O odor do lixo vivo
às vezes me incomoda
outras enoja
porque convivo
porque transborda
e quase sempre paralisa.

Tento me diferenciar
mas é como caminhar descalça sobre cacos de vidro
a cada passo, sangro
a cada corte, pertenço

dói o corpo
dói a alma
dói a consciência.

Não fui capaz de me importar ou não sabia
que com o excesso de planejar e corrigir
deixei para trás também a gratidão e a alegria
e já não lembro por que desejei partir…

talvez fossem as frustrações
mas já não me recordo de quais eram
o que poderia ser pior que isso aqui?
fechei as portas para corações
vidas que pulsavam
foi isso que escolhi?

nunca mais reconhecimento
nunca mais autoridade
nunca mais comprometimento
nunca mais dignidade

agora sou menina, pela qual tudo passa.
passa gente
passa tempo
passam olhos

menina do corpo objetificado
o que traz consigo ninguém quer
embora antes fosse almejado
embora antes, professora, mulher…

meu corpo é político e veste All Star
não tenho salto para descer
já venho com os dois pés no chão
e no peito se precisar
nesse espaço em que a aparência deve prevalecer
regido pela falsa moral do "bom cristão".

O lixo transborda
e ali ou dali cai um espelho
que temo quebrar, mas me confronta
e diz que brilho

mas o odor também ofusca
e tenho medo de encarar
porque posso desandar

Dói ver
Dói ter
Dói ser

Eu digo: “Cansei!”
e me pergunto se estive sempre cansada
se o espelho não assusta porque sei
que sempre mergulho no nada.

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