30 anos: o retorno de Saturno e reflexões
foto: Aldo Boaretto
Confesso, não entendo quase nada de astrologia, não tenho a pretensão de estudá-la por enquanto, mas acredito que muitas questões são fundamentais para o nosso autoconhecimento, como as que dizem respeito ao famoso retorno de Saturno que, de acordo com esta linha, ocorre pela primeira vez em nossas vidas em torno dos 28 e vai até os 30 anos de idade, aproximadamente. Trata-se de um período turbulento das nossas vidas, caracterizado por conflitos, mudanças e decisões cruciais.
Passei a me interessar pelo assunto quando fiquei extremamente confusa e inconformada com a avalanche de reviravoltas que começaram a acontecer e uma amiga disse: “retorno de saturno! você vai sofrer, mas vai ficar com o que realmente importa!”. E foi o que aconteceu. Cheguei aos 30 com o que realmente importa e estava perdendo, meu eu livre.
A referência me chamou atenção e hoje faz sentido porque o que sinto é uma espécie de renascimento, acompanhado do aprendizado que os conflitos me trouxeram. Tenho, inclusive, dificuldades de me reconhecer nas posturas que adotei há quase dois anos, no início das guinadas.
De 2016 para cá se sucederam muitos erros, algumas coisas caminharam como se eu estivesse simplesmente desandando sem, evidentemente, me dar conta disso naquela fase. Opções que certamente não faria hoje, mas que me ensinaram muito, especialmente sobre minha vinculação com a moral. Por outro lado, fiz escolhas fundamentais para que tenha conseguido sair de um relacionamento abusivo e reconhecê-lo como tal muito tempo depois, apesar de ainda não estar preparada para conversar sobre isso com ninguém.
Desatar esse nó foi como um combustível para a vida que me fez entrar em uma fase de necessidade extrema de experenciar o mundo, testar minhas possibilidades de prazer e também de dor. Eu sentia uma sede imensa, sobretudo de mim mesma. As relações com o dinheiro, o álcool, a escrita, a alimentação, o trabalho, a moral, o espelho e as pessoas foram repensadas, resgatadas, construídas e desconstruídas ao mesmo tempo. Mergulhei, no último ano, no prazer que me fez desejar viver e na dor que me fez querer morrer. A maioria das certezas foram postas em dúvida e várias questões resolvidas gradativamente.
Entre as tantas coisas que aprendi e poderia citar, escolho a mais importante e que considero atrelada às demais: a ressignificação do amor. Ressignificação porque entendo que este não é violento, oportunista, não manipula, oprime e ofusca o outro, como tendemos a acreditar quando vivenciamos relacionamentos abusivos e, infelizmente, eles estiveram presentes em minha vida nas relações de amizade, familiares, trabalho e conjugal. As sequelas ainda gritam e dificultam decisões e posicionamentos ou fazem com que saiam tortos. Por isso, reaprender a amar é um processo e estou me permitindo.
No relacionamento amoroso precisei amar, não jogar, experimentar a sensação de tê-lo arrancado de mim e, ainda, me permitir uma chance, me autorizar a vivenciar esse sentimento em sua plenitude, sem resistir, abandonando o orgulho até então característico da minha personalidade e consciente de tudo que colheria e teria que lidar diante dessa escolha. Nada fácil. Meu feminismo foi e é posto à prova constantemente e, apesar da dificuldade que encontro em praticar determinados princípios, estou cada vez mais convicta da sua importância e urgência, do quanto ainda preciso aprender e ensinar.
Quando olho para o histórico da minha existência, vejo-a marcada pelo esforço - muitas vezes bem sucedidos, em diferentes âmbitos, momentos e relações, de apagamento e enfraquecimento do meu eu livre, como ocorre com a maioria das mulheres que encontram e escancaram seu potencial. Mas sobrevivi. O retorno de saturno evidenciou a força que tenho e descobri que mesmo com numerosas tentativas de apagamento, eu a usei, sobretudo na minha relação com alunos e ex alunos - que sempre me trouxeram vida. Consegui afetá-los, embora tenha passado muito tempo acreditando que não. Hoje sei, gosto de dizer e mostrar o quanto fui fundamental na vida de muitos deles, o quanto consegui amar, ser amada, transformar e ser transformada.
Por fim, pude confirmar o que já acreditava: a vida é dura e tenho uma personalidade, alma e coração suicidas. Mas também é bonita e pode ser leve. Descobri que não quero o amor que me consola na dor, mas me reprime no prazer e, igualmente, não desejo o amor que me acompanha no prazer e foge da dor. A parceria em ambas as coisas é o que acredito que quero e devo preservar, em todas as formas de relacionamento.
Nasci de novo, mas com marcas de três décadas que me ensinam, fortalecem e viabilizam novos olhares. Entendo que preciso dizer para muitas pessoas até que ponto podem ir comigo e, por compreender as consequências, ainda não fiz, mas, cedo ou tarde, será imprescindível. Precisarão compreender o limite, meu completo desinteresse no que elas acham sobre as minhas decisões e que coloco dentro do meu corpo, da minha casa e da minha vida o que e quem eu quiser. Soa absurdo a pessoa precisar levar 30 anos para entender que um foda-se é essencial para uma vida saudável. Mas é isso.
Portanto, paciência para quem está no processo e receba de coração aberto os conflitos e presentes de Saturno, da vida ou de qualquer outra coisa que você acredite ou queira denominar. Passei por transformações radicais e embora me arrependa de muitas escolhas, viveria tudo novamente só para chegar até aqui com a consciência e o amor próprio que adquiri, só para ter a oportunidade de conhecer pessoas incríveis, resgatar as que havia perdido no caminho e eliminar as tóxicas, só para amar como estou amando.
Comentários