Por que é tão difícil fortalecer aqueles que abraçamos?
No início do ano passado, publiquei um texto intitulado “O que e quem estamos financiando quando comemos?” no blog Comida e Afeto- Alimentação com efeito. Desenvolvendo uma reflexão sobre alimentação e agronegócio, afirmei que “é fundamental refletirmos sobre o que e quem estamos financiando com nossas horas, muitas vezes exaustivas, de trabalho.” e novamente venho insistir nisso, com um convite para problematizar nossas relações com o outro.
Sabemos que vivemos em um sistema capitalista e todos precisamos, de alguma forma, sobreviver e como nem eu e muito provavelmente nem você compomos a elite do país, nosso dinheiro não verte facilmente. Não raro, precisamos brigar pelo que é nosso por direito, porque sofremos negligência financeira e moral. No entanto, o que você faz com o que ganha? Fortalece o sistema que nos massacra porque, entre tantas decisões, uma delas consiste na escolha de serviços e produtos oferecidos por grandes empresas e empresários com os quais você não possui nenhum vínculo, quando, muitas vezes, amigos, conhecidos e familiares oferecem o mesmo trabalho e, embora você mande whats com mensagens insuportáveis de "bom dia", curta as fotos, abrace e tome cerveja junto, prefere não estabelecer esse tipo de relação, exceto quando é para pedir um favorzinho.
Há quem diga que a decisão está pautada na qualidade e não em uma relação de proximidade, o que é absolutamente compreensível e aceitável. Porém, esse argumento cai por terra e gera incômodo quando, na maioria esmagadora das vezes, as pessoas sequer buscam conhecer e avaliar o trabalho do outro.
Recentemente uma amiga fez a seguinte publicação no facebook:
“Tem uma mãe precisando MUITO de apoio, ela faz pães, de todos os tipos, em São Paulo. Vamos ajudá-la efetivamente?! encomendando/comprando pães ?! É o trabalho dela, então não é dar tapa nas costas e nem abraços (porque infelizmente abraços não pagam supermercado e mãe e cria precisam comer) e sim, poder comer algo caseiro, feito com qualidade, respeitar e incentivar uma profissional mãe/mulher. Quem vem?!” (Maria Carolina Guimarães).
Ninguém foi! Compartilhei e duas pessoas curtiram. Alguns dias depois, perguntei a ela se alguém havia lhe procurado e ela respondeu: NINGUÉM. As pessoas sequer pesquisam informações para uma possível indicação. E neste exemplo estamos falando de pão. Quantas pessoas você conhece que não comem pão? Desinteresse, má vontade e descaso gritam e pergunto: Por quê?
É importante refletir sobre a construção da desvalorização da cultura e produção local, de tudo que é tido como pequeno e também do que nos é próximo, buscando compreender seu início, permanência e objetivo, pois sabemos que não são visões e comportamentos isolados. Em geral, a tendência é que não se valorize o que é próximo, supondo automática e irrefletidamente, inferioridade. Não há disposição para conhecer, consumir, indicar, divulgar, mas há para fazer tudo isso com grandes empresas, marcas e artistas famosos. O curioso é que os pequenos e próximos nos oferecem facilidade de acesso ao conhecimento do seu processo de produção e, principalmente, aos sujeitos- quem são, o que pensam e a quem servem. Já os grandes, raramente temos ideia de como o produto chega até nós, na quantidade de pessoas e animais que podem ter sido explorados, violentados e, principalmente, no que faz com que se mantenham sempre dominantes. Talento? Sorte? Qualidade? Capital?
Questionar a caminhada até o que popularmente se entende como sucesso não significa abominá-lo, trata-se de uma provocação muito mais voltada para o interior de cada um de nós, nossos desejos e frustrações, do que para o mercado em si, cuja reflexão demanda maior rigor e é extremamente necessária, mas deixo para outro momento.
Sugiro, por enquanto, nos voltarmos para nós mesmos na tentativa de entender a incompatibilidade do nosso discurso com as ações, o distanciamento entre o que gostamos de parecer e o que somos de fato, na sua dificuldade que se diz tão preocupado com as minorias ou tão ligado a espiritualidade, em fortalecer aqueles que fazem parte do seu convívio e que você diz nutrir algum tipo de afeto.
Sabemos da importância do financiamento e decidimos o que e para quem vamos pagar, sempre que podemos. Portanto, o que te leva a financiar estranhos? a fazer marketing gratuito para grandes empresas e sequer compartilhar o trabalho de amigos?
**se chegou até aqui e for compartilhar o texto, o faça indicando o trabalho de alguém no post!
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