(In)Gratidão
Sou o tipo de pessoa que tem grande
dificuldade em reconhecer os próprios erros e, principalmente, pedir desculpas.
Venho trabalhando nesse defeito há muito tempo e confesso que evoluí pouco. Por
outro lado, sou extremamente grata a tudo que fazem por mim e faço questão de
manifestar, chego a ser repetitiva. Agradeço com palavras somadas a gestos,
presentes, presença. Talvez por isso, não tenho maturidade, estômago para lidar
com a ingratidão que, infelizmente, ocorre com frequência.
Sou muito egoísta, dificilmente
me coloco em segundo plano. E, apesar de preguiçosa, não meço esforços quando
me sensibilizo com alguma causa, situação, pessoas ou simplesmente quando me
pedem ajuda, mas faço porque sinto prazer nisso, é uma das coisas que me movem,
inclusive. Porém, entendo quem não gasta energia com os outros, porque apesar
de saber que eu faria tudo de novo, que fiz o que meu coração mandou, que me doei,
dói na maioria das vezes. Dói porque não há o mínimo reconhecimento e seria
muito hipócrita afirmar que isso não importa, não faz a diferença, porque
sabemos que é fundamental.
Não se trata de troca, vantagem,
esperar alguma coisa. Reconhecer é mais do que isso. É saber que não se chega a
lugar algum sozinho e identificar quem viabilizou a travessia, seja na
superação da dor, na realização de um sonho ou qualquer outra conquista, dificuldade
superada. É encontrar uma maneira de dizer a esse outro que você o caracteriza
como sujeito e não objeto. É uma manifestação de amor.
Diante do não reconhecimento é
inevitável sentir-se como um objeto que foi utilizado no momento necessário e,
em seguida, descartado ou guardado para a próxima, o que é, no mínimo,
incômodo.
Já experimentei isso algumas
vezes e, na maioria, envolvendo trabalho ou habilidades que eu poderia cobrar
para desenvolver, mas fiz de coração aberto. Sempre me calei porque vestir a carcaça
de trouxa todas vezes me pareceu menos humilhante do que cobrar gratidão,
afinal não é o tipo de coisa que se cobra, não é dívida, tem que vir do coração
e, muitas vezes, do bom senso também. Mas, escrevo por dois motivos.
Primeiro, não me parece justo
cobrar que as pessoas se doem mais quando na maioria das vezes não se é capaz
de reconhecer devidamente quem o faz. É possível que boa parte dessas pessoas
não sejam intragáveis, mas apenas sujeitos que se protegem, que poupam suas
energias. No ano passado uma aluna reclamou de um professor que não ajudava com
as atividades da formatura, não era voluntário nas festas aos sábados, entre
outras questões. Olhei para ela e perguntei se ele era um bom professor, se
exercia bem seu trabalho em sala de aula. Ela respondeu que sim e finalizei: ”Então
ótimo, é apenas isso que você tem que cobrar. Essa é a obrigação dele e não
ajudar vocês!”. Por tratarem como obrigação, por misturarem as coisas, é que as
pessoas não sabem agradecer quando vamos além. Eu gostaria, genuinamente, de
ser esse professor, mas quando vejo já estou nadando contra a corrente nas
águas do além e, não raro, termino afogada.
Escrevo também e talvez
principalmente, para que esse desabafo seja um instrumento de reflexão sobre
como lidamos tanto com os esforços, quanto com os não esforços alheios, sobre o
que e por que cobramos dos outros, o que e como esperamos. É um exercício de
autoconhecimento e, ao mesmo tempo, de aprender a olhar para o outro.
Por fim, proferir um “muito obrigada” não custa muito e, quando vem do coração, é um presente, um motivador para que sigamos dando as mãos uns aos outros. Gratidão à todas e todos que me estenderam as mãos ou impulsionaram meus pés sempre que precisei.
Por fim, proferir um “muito obrigada” não custa muito e, quando vem do coração, é um presente, um motivador para que sigamos dando as mãos uns aos outros. Gratidão à todas e todos que me estenderam as mãos ou impulsionaram meus pés sempre que precisei.
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