eu e o (não) existir
Tenho um histórico de tristezas
e/ou, como diria uma pessoa que conviveu de perto com isso por anos: “má vontade com a vida”. Embora eu, minha
homeopata e todos que estão por perto saibam que sofro de ansiedade, nunca fui
diagnosticada com depressão ou qualquer outra doença. Sempre fugi e me sinto
mal só de pensar que acho que posso
sofrer disso, quiçá afirmar, porque já imagino as pessoas me dizendo que estou
procurando ou que se trata de vitimismo, além do fato de que me esforço para
parecer sempre forte e não consigo desconstruir a visão de fraqueza que tenho
em relação a qualquer desequilíbrio psíquico e emocional. Mas, enfim,
diagnósticos e justificativas à parte, o fato é que venho enfrentando dias
difíceis e mascarando a dor de algumas formas e por alguns motivos que não
ajudam em nada. Porém, resolvi assumir e escrever porque quando escrevo,
elaboro melhor, me ajuda no processo de autoconhecimento, além do desejo de
compartilhar, dividir o que já não cabe em mim.
Há um mês levei uma espécie de
golpe, fiquei com a sensação de que o que eu sequer tinha foi arrancado de
mim. A dor que senti foi a de um soco no
estômago, desses que vão fundo e tonteiam, tiram o ar. Não entendi porque me
senti assim. Não entendi que tipo de entrega havia feito, se tinha ou não
criado expectativas. E sim, estou me referindo a um relacionamento afetivo (nem
era, mas não sei como denominar). A partir daí, tudo que estava escondido em
algum lugar, veio à tona. Mas demorei todo esse tempo para compreender que eu
não estava apenas “sofrendo por causa de
macho” – frase que repeti numerosas vezes, para várias pessoas,
inconformada, como se uma mulher que se intitula feminista não pudesse se
apaixonar, como se esse sofrimento fosse não apenas inadmissível, mas
incompreensível. Somente agora entendo que eu já não estava bem antes dessa
pessoa e, evidentemente, há pelo menos um ano; de forma mascarada, talvez há muito
mais. Possivelmente, o que fiz nos últimos meses foi depositar alternativas de
ausência de dor nos exageros com comida e álcool e, sobretudo, na companhia de
uma pessoa cuja energia é leve, fazendo de conta que tenho uma ótima vontade
com a vida, que amo viver.
A verdade é que quando menos
espero sou tomada por uma tristeza que me paralisa, fisicamente inclusive. Não
vejo sentido em nada e não consigo sair do lugar. Às vezes, dura segundos e outras,
horas. Quando sou capaz de me mexer, é um movimento arrastado e que me impede
de fazer as coisas que me proporcionam prazer. Saio da cama, cumpro o que
entendo como obrigações e volto assim que posso. É como se um buraco se abrisse
e fosse me engolindo. Nem sempre choro, muitas vezes sinto-me fraca até para
derramar lágrimas. O coração fica pesado. Existir é dolorido, cansativo demais.
Ouvir que não tenho motivos para isso, que minha vida é ótima porque sou
concursada, amada pelos alunos, tenho casa, família e amigos, só aumenta a pressão.
A única vontade que tenho é a de não acordar, não existir.
Convivo desde a adolescência com
essas sensações e, com o tempo, aprendi a perceber que a situação está crítica
quando começa a afetar o ballet que amo, e meu trabalho que, apesar de todos os
estresses, eu gosto. Gosto da sala de aula, de estar com os alunos, rir com
eles. Sinto-me ótima quando estou explicando, quando me faço entender e por aí
vai. É uma terapia, na maioria das vezes. Porém, semana passada, enquanto
aplicava prova em uma turma, caminhei até o fundo da sala, encostei na parede,
olhei todos aqueles corpos de costas e comecei a me perguntar: “que sentido faz tudo isso?”, meus olhos
se encheram e a garganta apertou. Não tive e não tenho resposta. Sinto que faço
pouco e não consigo ir além e, ao mesmo tempo, que tenho potencial para mais do
que o que sou cobrada e ofereço. Essa situação foi um disparo, mas minha
frustração e meu desejo de não mais fazer parte disso, não são de hoje. Além disso,
surgem também os problemas de concentração. Quando estou nesses momentos de
crise, não consigo lembrar coreografias, conceitos, o que pretendo falar, o que
acabei de dizer etc e, às vezes, as coisas simplesmente se apagam por
instantes- o famoso branco, o que me deixa nervosíssima, complicando minha
saúde.
Nesse momento, estou anestesiada,
não consigo sentir dor ou prazer. Mas, concomitantemente, é como se estivesse
pedindo socorro. Não me sinto no direito de reclamar de nada sendo uma pessoa
privilegiada em diversos aspectos sociais e emocionais. No entanto, não vejo sentido na existência. Curiosamente,
estou tentando. Tenho consciência do quanto sou amada e também da minha
capacidade de amar, da quantidade de pessoas, especialmente alunos, que ajudo
e/ou ajudei, do trabalho que desenvolvo, do meu carisma, da minha importância
na minha família, mas, infelizmente, nada disso me motiva quando estou no que
chamo de buraco. Entretanto, desejo sair, não pretendo ser nenhuma iludida, mas
também não quero me sentir doente.
No início dessa semana consegui
limpar a casa, cuja sujeira e desorganização estavam acumuladas há cerca de três
semanas, e retomar a leitura do livro que estou tentando finalizar desde
janeiro. Ambas as coisas são importantíssimas. Apesar de reclamar, gosto da
limpeza, mas não estava conseguindo, toda vez que levantava “disposta” a
realizá-la, uma força me puxava para a cama novamente. Adoro ler, mas sem
chance. Como foi possível então?
Minha amiga Fernanda contou a
história de um amigo que teve depressão e como parte do tratamento, passou a
transformar as coisas que gostava de fazer, mas não conseguia, em metas para, aos
poucos, voltar a ser o que era. Isso foi muito significativo e levei a sério. No
domingo, estabeleci a meta de limpar a casa. Me arrastei por horas, fui fazendo
peça por peça, intercalando com cerveja, lágrimas, comida. Mas consegui. No dia
seguinte, a leitura, umas cinco páginas, mas o fiz. E assim fui desenvolvendo a
semana, tentando “sozinha” vencer o buraco.
Transformar prazeres em obrigações
é trabalhoso, afinal, alguém gosta delas? Mas, no meu caso, tem sido importante
para que eu não me entregue a única vontade que tenho sentido com frequência: a
de não existir. E, por que considero fundamental? Porque sei que não sou essa
nuvem cinza carregada ou, pelo menos, não é o que quero ser, não é a história
que quero escrever.
Ainda em tempo, agradeço todos
que estão entendendo meu momento e tentando me trazer dias melhores sem exercer
qualquer pressão e juro que esse texto não é uma carta suicida, é somente um
desabafo.
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