08 de março e seus desdobramentos: relato de uma professora, mulher, aprendiz.
foto: Annelize Tozetto.
09 de março de 2018: acordei passando mal. Levantei, comecei a fazer o café e minha vista foi escurecendo, perdi as forças; dei três, quatro passos largos e arrastados e caí na ponta da cama. Não sei se desmaiei, desconfio que sim e é o que estou dizendo por aí. Quando fui voltando a enxergar ou acordei, estava tremendo e suando frio. Achei que não teria condições de trabalhar, mas abri a janela, ar puro, mais um tempo na cama e consegui levantar e dirigir até a escola. Foi uma manhã muito difícil, quando tive que dirigir até a outra escola, achei que não aguentaria chegar lá antes de vomitar. Ministrei duas aulas horríveis porque enjoada e sem forças, mal conseguia concluir o raciocínio, só queria que a hora passasse. Enfim, cheguei em casa pior do que saí, sequer considerei a possibilidade de comer alguma coisa e passei a tarde inteira na cama. Vi nos olhos da minha mãe a revolta, porque julgou se tratar de ressaca e eu também considerei essa possibilidade num primeiro momento, mas hoje, completamente sóbria e após ter efetivamente descansado, entendo o que aconteceu e quero muito dividir com todos que têm paciência para ler meus textos.
A escolha profissional que fiz
por mim este ano, foi a de mudar os ares, o ambiente de trabalho. Quando me
perguntam sobre o motivo da saída da escola anterior, invento várias desculpas,
mas todos que estiveram mais próximos de mim sabem que fui durante um pouco
mais de um ano vítima de diversos tipos de violência, provocadas por uma aluna,
visivelmente doente, mas que me adoeceu também. Eu pedi ajuda, mais de uma,
duas, três vezes, mas fiquei desamparada. A escola não fez absolutamente nada. Meus
amigos e minhas amigas, familiares e ex-marido, o que estava ao seu alcance: ouviram,
deram conselhos e alguns insistiram para que eu fosse até a polícia e
solicitasse, ao menos, medida protetiva. Não fiz nada disso, tinha esperança de
que a instituição fizesse sua parte e eu pudesse ir pelo caminho menos doloroso
para ambas.
Quando paralisei na cama, nua,
porque saí do banho e não consegui me vestir, quiçá sair para trabalhar,
reconheci que precisava de ajuda. Já tinha parado de fazer análise, então fui
até a minha homeopata que sempre me salva e as palavras dela foram: “eu posso
te medicar para que você se fortaleça para trabalhar e seguir em frente e ao
mesmo tempo se acalme para não fazer nenhuma besteira, mas não posso tirar essa
menina do seu caminho, a escola precisa agir ou você terá que recorrer aos
superiores”. Mais uma vez, com exceção da médica, fomos todos negligentes, eu
principalmente, porque deveria ter feito algo por mim, como fiz no início desse
ano. E conto essa história porque acho importante dizer que nós fomos duas
mulheres cujas dores foram subestimadas pela instituição que éramos parte e
pela qual muito fizemos, fomos ignoradas, silenciadas, como tantas outras
vítimas em diversas situações. E o que isso tem a ver com o 8 de março e meu
corpo gritando na última sexta? Tudo, porque funcionamos assim, interligados.
Na última Quarta-Feira, 07 de
março, a Marcha das Vadias foi até a escola, representada pela Jussara Cardoso
que conversou com todos os alunos do Silveira, manhã, tarde e noite sobre o machismo.
Certamente foi extremamente cansativo para ela, mas não tenho dúvidas de que
faríamos tudo de novo, porque foi muito intenso e transformador.
Ela chegou com a proposta de
conversar e não de realizar uma palestra formal. Para que isso ocorra, a troca
é fundamental e, por isso, varia conforme o público, a disposição e as marcas
que carregam. Em uma das turmas tivemos um momento extremamente forte,
emocionante, que foi quando um MENINO levantou a mão e começou a relatar o
estupro que havia sofrido. Inicialmente os outros começaram a rir e
imediatamente a Jussara cortou, enfatizando que se tratava de violência e
estupro nunca é engraçado. E então, o silêncio se fez presente e ele conseguiu
finalizar o relato. Quem esperava por isso? Ninguém! Como reagimos? Muitos choramos,
outras se sentiram a vontade para falar sobre os estupros que haviam sofrido. Quem
eram os estupradores? Primo, padrasto, pai.
As estatísticas alarmantes estão
escancaradas por todos os lados. Portanto, que tipo de conta fiz para não
incluir minhas alunas e meus alunos nelas? Por que me dói tanto saber? Afinal,
eu não deveria supor que tenho vítimas de estupro em todas as turmas? De
assédio e tantas outras violências? Sinceramente não tenho respostas imediatas
para meus próprios questionamentos, o que sei é que ao mesmo tempo em que
fiquei dilacerada, fui tomada por um sentimento de gratidão, por ter diante de
mim uma mulher que estava ali, se doando inteira, pela escola, pela educação,
pelas mulheres, por uma sociedade melhor e possibilitando que aquelas vozes não
fossem silenciadas, que as vítimas se sentissem acolhidas o suficiente para
dividir a dor que por anos carregaram sozinhas.
A turma seguinte reagiu de uma
forma totalmente diferente. Um pequeno grupo de meninos não quis ouvi-la e
partiu para o ataque, proferindo frases e perguntas que julgavam ser
argumentos, mas eram apenas máximas bolsonada.
Não queriam dialogar, não conseguiram ouvir, estavam visivelmente incomodados
com a presença de uma mulher, feminista, diante deles, lhes dizendo que estavam
sim em uma posição confortável, que é confortável ser homem nessa sociedade
machista. Foi difícil, mas não o suficiente para impedi-la, porque os machistas
não vão nos parar, porque isso comparado ao que havia acontecido antes, não
consegue ser suficientemente desmotivador e é, concomitantemente, um exemplo
vivo de uma sociedade violenta, especialmente com as mulheres, com o feminino
e, infelizmente, explica porque nesse momento ninguém conseguiu levantar a mão
e dizer: “fui/sou vítima de estupro!”, ou será mais fácil pensar que não haviam
vítimas ali? Ocorre que o ataque, a violência não transformam, não acolhem,
enquanto o diálogo e o amor sim, vale sempre reforçar.
As conversas continuaram, a tarde
e à noite outras vítimas procuraram a Jussara para desabafar. Na manhã seguinte
dialoguei com os alunos sobre a experiência e colamos os cartazes pela escola. Primeiros
anos trouxeram a história de Pandora na mitologia grega e uma reflexão sobre os
estereótipos que foram construídos sobre a mulher. Segundos anos, uma discussão
sobre a fundamentação legal e moral da discriminação contra as mulheres,
culminando na violência. Os terceiros, perfis de mulheres da ciência que raramente
estudamos, conhecemos. Os mesmos trabalhos desenvolvi com os estudantes do
Afonso Pena durante a semana.
No final da tarde fui para a
marcha que este ano optei por não participar da construção, mas as companheiras
organizaram um movimento lindo, com atos muito significativos e fortes e
tomamos as ruas de Curitiba, em peso -éramos mais de 3 mil e com voz, muita
voz!
As pessoas reclamam pelo
trânsito, “coitado de quem está voltando do trabalho!” tive que ouvir antes da
marcha. Durante, vários xingamentos. Parece difícil compreender o que faz com
que estejamos ali, quais são nossos reais atrasos e o impacto deles na vida de
todas nós. Parece difícil entender que brigamos contra o retrocesso e que o
feminismo não prevê opressão, privilégios. Parece difícil compreender que
sempre tivemos que brigar, lutar para ocupar os mais diversos espaços e que
essa é a única forma de mudança, de conquistas.
Tive a honra de caminhar ao lado
de duas amigas, a Nicole, ex-aluna, ex-secundarista que já esteve comigo no ano
anterior e a Márcia, amiga de anos que esteve pela primeira vez, porque nos
anos anteriores, enquanto eu me manifestava aqui, ela estava nas ruas dos EUA e
conseguirmos fazer isso juntas, foi muito significativo para mim.
Depois de tamanhas experiências,
fui finalmente tomar cerveja com amigos e amigas que têm um papel fundamental
na luta por direitos e na minha existência. Não há trabalho no dia seguinte que
possa impedir que se viva esses momentos.
Diante de tudo isso, é possível
entender por que passei mal? Não foi a cerveja! Todos sabem que bebo muito e
nunca desmaiei, mesmo fazendo diferentes combinações alcoólicas. Nosso corpo é
muito mais do que julgamos conhecer, ele está sempre reagindo, dando sinais, o
físico não funciona separadamente do emocional, do racional. Temos força
instintiva, sentimos. E meu corpo absorveu, nos dias anteriores, muita energia,
muito mais do que estava esperando, muito mais do que está acostumado e
precisou canalizar de alguma forma, principalmente para que à noite eu
estivesse preparada para mais três conversas da Jussara com os adolescentes na
outra escola e, novamente, mãos levantadas relatando estupros sofridos,
lágrimas, abraços e a certeza de que precisamos falar cada vez mais sobre isso
em todos os espaços, mas sobretudo na escola, porque eu que nunca fui vítima de
estupro, só consigo pensar “quando vou entrar para as estatística?” e sentir
ainda mais medo, muito mais. E esse medo é compartilhado por todas nós,
adolescentes, adultas, idosas.
Uma das coisas que sempre lembro
do curso das PLP´S (Promotoras Legais Populares), é a voz da Raquel,
companheira de turma, nos questionando: “O que estamos fazendo nos pequenos
espaços?”. É imprescindível ir para as ruas, se engajar nos grandes movimentos,
mas é também essencial olhar para nossas casas, ambientes de trabalho, estudo,
lazer e refletir sobre o que estamos fazendo para viabilizar a redução da
violência, para garantir a equidade das mulheres na sociedade. Venho tentando
fazer isso dentro das escolas, mas reconheço que faço pouco, preciso ser mais
incisiva nestes espaços e nos outros que frequento e pertenço. A Jussara, a
Marcha das Vadias e tantas outras mulheres fazem um trabalho incrível,
admirável, que só tenho a agradecer, de coração, por mim, por todas!
Pensando no oito de março, em
tudo o que experenciei nesses dias e para finalizar esse texto, deixo a
pergunta que considero fundamental nesse processo de aprendizagem e
desconstrução: Quantas mulheres você tem ouvido?


Comentários