ser mulher



Às vezes me sinto esgotada


Pelo corpo que sem a pílula parece me trair


Escancara o escondido e me implora voz


Quando temo estar grávida e culpada


Sozinha para carregar a responsabilidade, mas sem autonomia para decidir


E me pergunto, quem realmente olha por nós?


O “esquerdo-macho” do trabalho que oprime sutilmente?


Os “divertidos” que elogiam minha beleza?


O companheiro que insiste no reconhecimento?


O homem que faz piada machista e justifica descaradamente?


O pai que xinga a vizinha com frieza?


O aluno que brinca com o constrangimento?


Sinto-me esgotada pelo corpo que trai


Quando o grito não sai


E triste me calo


Esvaziando minha luta pelo ralo


Atraída pelos erros e errados


Em constante conflito com a moral


Que me aprisiona em expectativas e funções


Contas, roupas, louças e debochados


Depilação, maquiagem, balança. Escolha ou pressão social?


E meus olhos vertem emoções…


De repente a ira me domina


E crio forças para desconstruir


E ressignificar


Tudo que há séculos nos condena


Escolho me levantar e seguir


Passos lentos e corajosos resolvo dar


Porque me torno mulher


A cada escolha do meu ser


E tudo que é pesado


Quero que seja findado


Meu coração é largo, mas impaciente


Não posso esperar o outro crescer


É preciso mudar


E tenho que seguir em frente


Não posso apenas não ver


É preciso diariamente resistir e lutar


Sinto-me sufocada em meu próprio espaço


Sem disposição para empatia com o privilegiado


Inflando a cada detalhe que engasgo


Vendo que pela causa me desdobro e faço


Mas e por mim? O que precisa ser rompido?


Talvez é chegada a hora do estrago


Esse corpo que me trai, também me liberta


Nesta bela contradição incerta


E quando me pergunto sobre quem será por nós


Grita: Eles, não. Nós, mulheres, apenas. Com dor, amor e voz!


(Escrito em  11/03/2017)

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