“Para vocês, tudo é machismo”
Quando criei o blog, escrevia com
muita frequência diversos tipos de textos sobre o que estava sentindo. Era uma
espécie de diário sem dar nome aos bois. Uma terapia, como a escrita sempre foi
para mim. E era, também, uma grande exposição – o que nunca me incomodou,
apesar de eu ser uma pessoa que tem aversão a exposição, talvez porque nesse
caso eu estava no controle, escolhia escancarar; o que é bem diferente de um
barraco ou vazamento de fotos íntimas. Mas, adulta, resolvi me preservar. No
entanto, não foi uma decisão própria, eu ouvi muitas vezes do meu ex (isso não
é uma tentativa de desqualificá-lo, é uma boa pessoa, ok?) que não deveria
abrir a minha vida em um blog e passei, aos poucos, a publicar textos mais
sérios e sobre outros assuntos, até chegar ao ponto de não publicar nada por
mais de um ano. Toda essa introdução é para informar que decidi abrir o livro
novamente e que, tendo me tornado a mulher que vocês conhecem hoje, não poderia
retornar com outro assunto que não fosse o machismo e o quanto ele me e nos
afeta.
O machismo condena uma mulher
antes mesmo do seu nascimento e é cruel com os homens também, mas hoje me limito
a refletir sobre o que acontece com nós, as separadas, divorciadas, solteiras diariamente
e o quanto é fundamental estar alerta e ser forte para não cair nas armadilhas
do patriarcado.
Meus pais são divorciados há
quase 13 anos e convivem bem, na medida do possível. Ambos tiveram outros
relacionamentos neste período, mas advinha só quem tem todos os olhos e línguas
dos parentes em cima quando namora? As desculpas para isso são diversas, mas a
verdade é que, aos olhos destes muitos, a mulher é sempre a culpada porque
errada, porque deve se preservar, não pode trazer homem para dentro de casa
etc, independente de como seja a pessoa com a qual se envolva, quando o faz, é
prontamente atacada – minha mãe que o diga. Meu pai é homem e, portanto, a
maioria dos julgamentos se refere à conduta de suas namoradas e/ou
companheiras. Elas são as vagabundas, interesseiras, enquanto ele, no máximo,
está apaixonado. Já minha mãe, é a vergonha da família. Inclusive nós,
filhas-mulheres, já adotamos tais posturas sem refletir sobre e, embora eu
esteja citando meus pais como exemplos, não é uma questão de indivíduos, não se
trata de escolher um lado, é sociedade, educação, cultura.
Nós, mulheres, ao mesmo tempo que
temos a sexualidade negada, nos é reforçada, constantemente, a ideia de que
PRECISAMOS de um homem em nossas vidas, ou seja, ficamos amarradas. Felizmente,
meu pai sempre não só disse “estudem e trabalhem para não depender de homem”,
como nunca nos cobrou namoro, casamento. Já os demais... Mal me separei e
alunos, colegas, amigos, familiares já queriam me apresentar possibilidades de
relacionamento sério e ninguém, absolutamente ninguém, perguntou o que eu
realmente queria, como se minha vontade fosse irrelevante.
Acredito genuinamente que eles só
desejam o meu bem, a tal felicidade, e aprenderam que isso depende de um namoro
com homens, pois não se cogitou a possibilidade de uma namorada, vale ressaltar.
E não pretendo condená-los por suas ações, mas problematizá-las. Presenciei ainda uma onda de puxa-saquismo e,
claramente, a escolha do meu ex por parte de alguns familiares que deduziram
que havia um lado a ser escolhido e, evidentemente, não seria o meu; sem a
menor necessidade, já que rompemos em paz. Não houve sequer uma preocupação em
saber se eu estava bem, afinal estamos falando de perdas. Houve apenas o não dito
e seus rótulos negativos a mulher da relação, como de costume.
Nós aprendemos a ignorar esse
tipo de coisa, bem comum nas famílias convencionais, e é tranquilo lidar com
tais situações; um afastamento, uma boa resposta, sempre cortam qualquer
desgaste que possa se estender. Entretanto, para além do núcleo familiar, a
vida continua e, agora, estou solteira, livre. Porém, é difícil ser livre,
porque neste caso, não significa apenas não ter a quem dar satisfações, mas “ser
o que quis” como diz uma das minhas músicas, Tigresa, e quando não encaramos o preço disso, corremos o risco de ser tudo, menos o que
queremos.
Sou uma recém-solteira e já
percebi alterações significativas no comportamento das pessoas, na maneira de
me tratar, homens principalmente.
No trabalho, ciclos de amizade e
rolos, foi preciso me posicionar com certa violência diante de algumas
situações e indivíduos para que ficasse entendido que o respeito é ao sujeito e
não ao seu estado civil, que ser uma mulher solteira não significa estar
disponível, que sua voz não pode ser ignorada porque se supõe que está
fragilizada. Tal compreensão deveria ser intrínseca a nós, mas é impressionante
como muitos simplesmente se acham no direito de invadir a intimidade, fazer
comentários e perguntas sem que lhes tenha sido concedida nenhuma liberdade
para tal.
Considerando que infelizmente são
acontecimentos recorrentes, é preciso constantemente se perguntar: você está se
sujeitando? E, se identificar que sim, por qual motivo? Quando não queremos,
quando nos incomoda, quando nos sentimos agredidas, não é frescura, não é
loucura, não é radicalismo. Se não nos sentimos confortáveis, algo está errado
e não é conosco, mas precisamos nos impor, porque a linha que separa a
liberdade da servidão é muito tênue.
Portanto, queridos, desde a
interferência de um homem nos conteúdos dos textos de uma mulher, “aconselhando-a”,
até a qualificação de vagabunda que se concede (injustificável, seja qual for a
situação), é machismo, é violência. E, se a vida de vocês se resume a
interferir e julgar sobre como cada mulher lida com sua sexualidade, relacionamentos,
vida; é sim tudo machismo. E apesar destas questões soarem como clichês, devido
ao número de mulheres que as repete veementemente, sinto necessidade de
trazê-las e não por me incomodar com os julgamentos acerca das minhas escolhas,
mas por saber que enquanto eu me divirto sendo a “louca” que se posiciona, muitas
continuam se explicando, se escondendo, atendendo às expectativas alheias, se
sujeitando.
Para estas, sejam tigresas. A luta é constante, mas fazer o que queremos, é uma experiência transformadora, por isso tão temida pelos machistas!
Para estas, sejam tigresas. A luta é constante, mas fazer o que queremos, é uma experiência transformadora, por isso tão temida pelos machistas!
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