Quando se trata de professor e educação, simplesmente não vira causa
No dia 29/04/2015, nós, professores do Paraná, fomos covardemente massacrados em praça pública, a mando do governo (Beto Richa-PSDB). Hoje, passados exatos 30 dias do ocorrido, continuamos em greve, continuamos sendo massacrados –agora emocionalmente. O projeto que tentávamos impedir no sangrento 29 de abril, foi aprovado, enquanto muitos apanhavam, corriam, caíam, choravam, se desesperavam, outros, protegidos dentro do patrimônio público (ALEP) por, vale dizer, funcionários públicos (policiais) e cães, votavam. Ouso afirmar que somente por conta desse episódio, a maioria da sociedade paranaense se diz do nosso lado, se mostra compreensiva em relação à nossa luta e solidária. Mas, será?
Nas redes sociais e, graças a elas, tragédias são rapidamente divulgadas, sensibilizam e viram causa. O massacre na redação do jornal Charlie Hebdo, na manhã de 07/01/2015, é um exemplo. No mesmo dia as pessoas começaram a postar #JesuisCharlie e isso durou alguns dias. Eram todos Charlie? Não preciso responder. No caso dos professores do Paraná, rapidamente vídeos foram espalhados país a fora, indignando e comovendo as pessoas. Logo em seguida, a tentativa de campanha #SomostodosProfessores, com produção de adesivos, inclusive. Pegou? Não. Quem aderiu foram professores, seus familiares, amigos e alguns alunos. Nesse momento você deve estar pensando que sou pretensiosa demais ao comparar bala de borracha com projéteis, feridos com mortos, Paraná com Paris, enfim. No entanto, a questão é que o caso Charlie é um exemplo de envolvimento de muitos que, até então, nunca tinham ouvido falar da revista, como ocorre com tantas outras causas, sejam elas positivas ou meras bobagens. Mas, quando se trata de professor e educação, simplesmente não vira causa. Somos todos professores? Não, não mesmo. Não existe sequer a tentativa de parecer ser.
Quando o assunto é educação, carecemos de interesse e pressão da sociedade e, por isso, temos nesse momento greves passam de um e até dois meses nos estados do Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Pará, além de Goiás que passa dos 15 dias e recentemente Mato Grosso do Sul. Greves que só são noticiadas e superficialmente em seus respectivos estados, sequer é possível encontrar informações mais detalhadas na internet. Professores e servidores cruzam os braços para não perderem direitos adquiridos e/ou exigir que sejam cumpridos e isso, para a mídia e boa parte da sociedade, é insignificante, não merece virar noticia, quiçá reportagem. Entretanto, se motoristas de ônibus e bancários, por exemplo, entram em greve, o governo procura resolver rapidamente, pois caso contrário, o caos se instala e a sociedade exige que o problema seja solucionado.
No Paraná, a comunidade, em geral, se diz a favor dos professores, mete a mão na buzina, acena, aceita panfletos, alguns conversam e manifestam indignação, apoio, mas é só. Pouquíssimos pais foram às ruas. Pouquíssimos alunos, embora o grêmio estudantil exista na maioria das escolas. Costumeiramente, a pressão é em cima dos professores (“folgados”, “vagabundos”, “aumento de novo” etc), mas, como apanhamos da polícia a mando do governador, raros, raros mesmo têm coragem de nos culpar e cobrar declaradamente. E é só pelo constrangimento, para não parecer insensível. Não se iludam colegas, se não tivéssemos apanhado no dia 29, estaríamos sendo massacrados agora, pela mídia, pela sociedade, como sempre ocorre com professores da rede pública, pois, no fundo, muitos pensam que devemos voltar e esquecer porque não há mais jeito, pois, afinal, temos que cumprir o ano letivo.
Por que educação não vira causa? Passaram-se apenas 30 dias do massacre no Centro Cívico, quem ainda se manifesta? Quem ainda cobra punição aos responsáveis? Qual governo a priorizou, de fato? Nos acostumamos a ser humilhados, desrespeitados, a aceitar qualquer coisa, qualquer coisa mesmo: ofensas declaradas, mascaradas, burocracias, exposição. Culturalmente, construímos a visão de que somos os únicos responsáveis pela má qualidade da educação, de que somos os coitados que precisam pagar meia no cinema e nos shows, porque aceitamos salários e condições indignas, deixamos falarem sem nenhuma propriedade sobre nosso trabalho e por aí vai. E os alunos? Se aprenderam uma coisa na escola, é que valem tanto quanto seus professores, afinal, são tão humilhados quanto. Sobre isso e sobre educação, leia Eliane Brum, no excelente texto Humilhar e ignorar professor pode. Sufocar e ferir não.
Portanto, bem sabemos que se todos os alunos, pais, responsáveis e demais interessados na qualidade da educação pública entrassem no debate e na luta, a greve já teria sido encerrada. Ocorre que podemos contar com um grupo pequeno de estudantes realmente engajados – a maioria já faz parte de movimentos que lutam por diversos direitos e corajosamente vão para as ruas; pais e intelectuais, professores de universidades federais e particulares. Sendo assim, o governo conta com a ignorância do povo para manipulá-lo com propagandas caras e falaciosas em horário nobre e a sociedade não faz nada, considera normal, natural. Se tivéssemos uma boa educação, não se cogitaria a hipótese de veicular tais propagandas, sequer de produzi-las.
Por tudo isso, neste dia em que lembramos o que não podemos esquecer, que aconteceu na tarde de 29 de abril de 2015, peço, mais uma vez, o apoio verdadeiro da sociedade para que possamos voltar às aulas de cabeça erguida. Redes sociais, ruas, telefonemas, imprensa, todos os meios são válidos, basta fazer da educação uma causa, lembrando que é direito e que a raiz de tudo que reclamamos no mundo, está na qualidade, no acesso à educação de qualidade.
Comentários