Dona Iolanda



Sempre pensei na morte. Uma das questões que me levou a escolher estudar Filosofia, por intermédio de um professor, foi justamente os bons textos que eu escrevia com facilidade sobre o assunto. Portanto, não tem uma pessoa importante que tenha passado pela minha vida, ou faça parte dela, sem que eu tenha, em algum momento, refletido sobre como eu reagiria e o que faria caso ela morresse. E penso nas causas, acidente, doença, suicídio, violência. E choro. Imagino. Com minha avó, Iolanda, não foi diferente e considerar a possibilidade de perdê-la passou a ser um pensamento diário desde que ela começou a adoecer, especialmente no inicio deste ano.  E quando pensava nisso, pensava também em homenageá-la com a música “Dona Cila” da Maria Gadu por saber que ela escreveu a canção para a avó que havia falecido. Sempre chorei ao ouvir, pois “Dona Cila” é, para mim, “Dona Iolanda”.

Eu sabia que este dia chegaria, estava preparada, dormia com medo de ser acordada com a notícia. Mas quando chegou, a dor foi avassaladora. É muito difícil aceitar que perdi minha companheira, embora compreenda. Em seu último aniversário, escrevi um cartão com um trecho da música “De todo o amor que eu tenho, metade foi tu que me deu. Salvando minha alma da vida. Sorrindo e fazendo o meu eu”. Agora, dedico ela inteira a minha rainha, grande amiga, mãe, porto seguro, meu bebê que amei e cuidei com muito carinho e dedicação até seu último dia de vida:




Terei que encontrar um jeito de estar sem a minha avó, de lidar com vazio que ficou, de conviver com as lembranças sem tristeza, pois qualquer atitude, qualquer objeto, qualquer canto da casa me lembra ela. Ela que sempre tinha uma resposta, fosse para uma pergunta, uma provocação ou uma brincadeira. Ela que sempre tinha um conselho e algo a ensinar. As coisas que aprendi desde a infância e carrego comigo. As que aprendi recentemente. Suas pérolas. Sua lucidez. Seu carisma. Seu ciúme descompensado. Seu amor insubstituível.

Lutou pela vida até cansar das dores. Se preocupou com todos os filhos, netos, bisnetos e amigos. Marcou as vidas de três gerações da Rua Angelo Setim e da nossa família e, por deixar uma marca tão significativa é que teve, com a ajuda de todas essas pessoas, uma despedida merecidamente linda, com todos a rodeando – como sempre gostou, com orações e música.

Eu sei que minha avó está bem. Não tenho medo da morte, temo que as pessoas que amo morram, pois acredito que quando morremos e, enfim repousamos, encontramos a paz que sempre buscamos em vida, o repouso absoluto, o prazer sem nenhum tipo de dor, a felicidade. Mas eu, que estou viva, sofro, sofro por mim, por egoísmo, pois sei que o clichê de dizer que foi o melhor para ela é a mais pura verdade, mas foi o pior para mim, foi o maior golpe que já levei na vida, está sendo a maior dor que enfrento. É horrível pensar que ao abrir minha porta, não vou encontrá-la sentada no pátio, que não vou passar os cremes em seu corpo, ouvir suas histórias e reflamações, ver sua careta para comida na hora do almoço, segurar sua perna na hora da novela da tarde, sua felicidade ao ganhar uma vitamina, receber visita dos filhos, netos, bisnetos e vizinhos, falar com a Fernanda e o Osvaldo pelo whats, ver fotos, ganhar presentes;  pensar que não verei mais a Rose pintando seus cabelos e concordando com tudo o que dizia, que não terei mais ela dizendo que está conversando com o Doutor Fritz, que meus olhos estão tintos, que preciso diminuir a barriga, cuidar melhor do marido, ajudar a mãe, dormir menos, dirigir. É horrível pensar que não a terei do meu lado, torcendo por mim, comemorando minhas conquistas, percebendo minhas tristezas, dizendo que não queria nos deixar.

Dona Iolandinha recomendou que eu deveria cuidar de todos, acreditando que eu seria a força da família, e é o que estou tentando fazer desde que ela nos deixou. Ela sabia o quanto eu a amava e tudo que fiz diariamente por esse amor e talvez soubesse que tenho o orgulho de afirmar que aproveitei muito nosso companheirismo, nossa vida, fiz o que pude para tê-la bem até o fim. Mas, ainda assim e talvez justamente por isso, sinto muito, muito mesmo. Gostaria de poder arrancar com a mão a minha dor e a de todas as pessoas que fizeram parte da vida da minha avó, mas não tenho esse poder, então, temos que aprender a eliminar a dor gradativamente.

Por fim, o que tenho a dizer a mim e a todos que dividem comigo esse sofrimento, é que se vida é para cumprir missões, ela não só cumpriu como o fez com extrema elegância, alegria, vontade, dedicação e amor. Uma história linda que gerou tantas outras, que tornou possível tantas outras, nos motivando, encorajando, sonhando junto, admirando. Ah, que mulher. Quem me dera ser como ela! 


À grande Dona Iolanda, todo meu amor, respeito e saudosismo!!



Comentários

Unknown disse…
Amiga, quando minha avó morreu também tive a sensação de ter sido muito mais difícil do que eu esperava. A verdade é que a gente nunca sabe como vai ser mesmo. Com o tempo, o vazio vai sendo preenchido com as lembranças, as histórias, uma saudade boa. No meu caso, senti muito desse vazio se preencher do final do ano passado pra cá. Primeiro com meu envolvimento no projeto do asilo, que continuo frequentando. Depois, conhecendo sua avó. Eu realmente me apaguei muito a ela nesse tempo, mesmo os dias de convivência tendo sido poucos. Mas Dona Iolanda era realmente uma pessoa especial. Senti uma troca de sentimentos muito verdadeira com ela e, agora, revivi toda a dor da perda com vocês. Não importa quantos anos a pessoa tenha, sempre acho a morte uma injustiça. Chorei tanto pensando que ainda tínhamos planos com ela e me lamentando por não tê-la conhecido antes. Mas, ontem, já comecei a rir. Dormi rindo da lembrança dela rezando pro Dr. Fritz, dela chamando o Osvaldo de Magal, dela falando que ovo de codorna provoca sexo...rs. Ai, que delícia. As lembranças são maravilhosas e chegará o dia em que elas irão se sobrepor a essa dor, amiga.

Com certeza ela está num lugar melhor e olhando por você. Depois que minha avó morreu aconteceram tantas coisas boas na minha vida, que não tem como eu não acreditar que tem um dedinho dela em tudo isso. Agora elas são anjos.

Fique firme, amiga. E qualquer coisa, estou aqui. Amo você!
Frei Davi disse…
Sei que não partilhamos exatamente as mesmas ideias e conceitos, mas sempre gostei de ler o que você escreve, e este texto está particularmente inspirado. Gostaria apenas de partilhar uma experiência. Quando eu tinha uns seis anos, minha avó materna, a única avó que conheci, faleceu. No dia do enterro, vi minha mãe e meus tios chorando, mas não entendia porque tanta lágrima e desespero. É que o limite da idade não me permitia, naquela ocasião, colher o significado do que estava acontecendo. Alguns anos depois caiu a ficha e me percebi sem minha avó. Comecei a lembrar dos doces momentos que, pequenino, vivi na sua casa, quando aos domingos íamos visita-la. Eu gostava tanto dela, mas aos seis anos não sabia disso. Uma promessa elevei aos céus, um dia qualquer, quando pensava nela: nunca irei chorar em enterro algum, a não ser por uma pessoa tão importante ou mais importante que minha avó. E assim fiz. Somente vinte anos após a morte de minha avó, ou seja, no ano passado, quando morreu minha tia-avó, é que voltei a chorar pela morte de alguém. Vinte anos contendo lágrimas em cada enterro que participei porque minha avó merecia este sacrifício. Pois bem, só tenho este conselho a lhe dar: não economize lágrimas por sua avó. Para alguns as lágrimas são sinal de fraqueza, ou de prostração na dor. Não! Lágrimas são a prova mais genuína de amor. Ninguém chora por uma pessoa “insignificante” na sua vida. Só choramos por quem amamos. Cada lágrima que agora derramas se converterá em uma rosa que Deus entregará à tua avó em teu nome. E se ela receber no céu um jardim de rosas, ela saberá quanto foi/é amada na terra. Que Deus recompense sua avó e a ti derrame suas bênçãos do céu, de onde te vê agora essa mulher que na terra tanto amou sua neta!!!

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