A vergonha do Paraná: sobre o dia de hoje

Ontem à noite, curiosamente, estava lendo Eliane Brum (Meus Desacontecimentos) e guardei o livro ao encerrar a leitura de um texto que me marcou “O incêndio na prefeitura”, no qual ela conta que quando criança tentou atear fogo na prefeitura – acreditando que isso seria possível apenas ao riscar o fósforo, com o objetivo de vingar uma humilhação que foi feita a seu pai. Adulta, Eliane afirma: “Hoje, ao lançar meus anzóis no lago nebuloso do passado, em busca de um mapa cujo único destino sou eu, percebo que escrever me salvou de tantas maneiras e também desta. Desde pequena eu tenho muita raiva – e quase nenhuma resignação. A reportagem me deu a chance de causar incêndios sem fogo e espernear contra as injustiças do mundo sem ir para a cadeia. Escrevo para não morrer, mas escrevo também para não matar”(p.70). A identificação é tamanha que me sinto no direito de me apropriar dessa afirmação. E hoje, especialmente hoje, escrevo para não matar.


O país inteiro sabe o que aconteceu na Assembleia Legislativa do Estado do Paraná (ALEP) nesta tarde. Os policiais massacraram os professores e demais servidores que manifestavam contra o projeto do governo (Beto Richa – PSDB) que prevê mudanças na previdência.  

Quando fomos informados de que a comissão de senadores não tinha conseguido suspender a votação, começamos a gritar “Retira, retira”. Eu estava relativamente próxima dos policiais, mas não estava na frente, não sei o que aconteceu lá, porém nada justifica a violência que começou naquele momento e foi tudo muito rápido. Minha amiga e professora avisou:“Começou!”, então demos as mãos e  fomos saindo, perdi todo o restante de vista. Naquele momento se instaurou o horror, bombas para todos os lados, nas gramas, em direção a prefeitura, lugares e pessoas que não representavam perigo nenhum para a segurança do patrimônio público, como eles afirmam. Me senti um cisco, me desculpem a expressão, mas uma bosta, incapaz de fazer qualquer coisa para a acabar com aquilo. Quando olhamos para trás, um mar de gente em nossa direção, tive certeza de que iria cair (devido ao problema do joelho) e ser pisoteada, mas minha amiga foi inteligente e mudamos a direção.  Vi gente correndo para o meio da rua, desesperados, praticamente se atirando na frente dos carros, gente caída, ferida, passando mal. E o barulho, o pavor do barulho das bombas que não cessavam. Um nó apertava meu coração, minha garganta. Violência e humilhação. De longe, observando o tumulto, me senti ainda pior, menor, revoltada, com raiva, muita raiva de tudo o que estava vivenciando e presenciando.

Quando o movimento já tinha dispersado, ainda eu via e escutava as bombas “de efeito moral” – engraçado esse nome, tem reflexão suficiente para um novo texto. A vergonha que senti era esmagadora, maior do que qualquer possibilidade de alívio por ter conseguido sair fisicamente ilesa, sim porque moralmente fui, assim como todos meus colegas de profissão, violentada, covardemente violentada.


Dizem que gostamos de nos colocar no lugar de vítimas, “coitadinhos”. Será mesmo apenas um discurso? Será mesmo uma opção nossa? Os professores são constantemente humilhados, não existe dignidade nos salários, nas condições de trabalho, nos direitos à saúde, nas burocracias as quais nos submetem, quando pegamos aulas, perdemos aulas, não recebemos por estas, na nossa palavra contra a dos alunos, do governo ou seja lá quem for. Não existe dignidade quando qualquer um toma a palavra para nos culpar pelos desastres na educação, para dizer como devemos trabalhar, apontar uma lista de erros; perante a sociedade, na maneira que somos tratados por boa parte da mídia, arrisco afirmar que, por vezes, não existe dignidade entre nós.  Muitas vezes, temos que implorar para ensinar porque temos diante de nós um bando de desinteressados. E quando temos estudantes que querem aprender, temos também o cansaço nos olhos deles, uma esperança quase invisível, marcas da vida em jovens tão novos para tanto e é aí que lembro que não apenas nós, professores, carecemos de dignidade, mas todos que são vitimas da desigualdade social, todos que têm sonhos, desejos e direitos limitados, que tentam sobreviver. E lembro que é por esses que vale à pena não ir embora, que vale à pena lutar, por esses e por nós. Brigar para que os direitos sejam mantidos é ridículo, deveríamos estar brigando para que fossem ampliados, mas para os governantes é sempre mais fácil retirar de quem tem pouco ou quase nada.

No entanto, as burocracias, a saúde, o salário, o que dizem de nós, o enfrentamento com alguns alunos são situações que, calejados, aprendemos a contornar e até solucionar muitas vezes. Porém, quando decidi ser professora, quando me disseram que não seria fácil, eu que já nasci na democracia, eu que não vivi nada semelhante ao regime militar, não imaginei que um dia sofreria tamanha violência e humilhação encabeçada pelo governo do estado, não imaginei que meus alunos sentiriam pena de mim e não seria por não conseguir explicar o conteúdo diante da bagunça, mas por ser atacada por policiais, pelos ferimentos – no meu caso morais, mas de muitos colegas, físicos também.



O projeto foi aprovado, o caos do lado de fora da ALEP não foi considerado um motivo plausível para interromper o que ocorria lá dentro. Afinal, a polícia estava apenas protegendo os deputados de nós, meros vândalos e com certeza extremamente perigosos, pois o número de policiais e recursos (bombas, balas de borracha, spray de pimenta, metralhadoras, helicóptero etc) era absurdamente grande, algo jamais destinado para conter uma rebelião, por exemplo, como foi afirmado pelos líderes da manifestação. E acrescento, nada disso é organizado para proteger nossos alunos que frequentemente são assaltados, vitimas de diversas violências na saída das escolas; nossas escolas que são roubadas, atacadas; o transporte público, o comércio, os taxistas, os bancários, todas as pessoas que não têm nenhuma segurança para ir ao trabalho, exercer seu trabalho, voltar para casa, ficar em casa. Subentende-se que o risco que representamos é maior do que o dos bandidos que nos intimidam, que matam, estupram, batem por pouco e nos fazem crer que poderíamos ter evitado se fôssemos mais cuidadosos e cuidadosas.  Os excelentíssimos deputados devem mesmo ser protegidos de nós? Somos mesmo o pior do pior? Somos seres humanos deploráveis? Insensíveis? Perigosos? Fomos nós que fizemos crianças saírem apavoradas de medo e algumas feridas de suas escolinhas? (o episódio das crianças me doeu muito).


Escrevo para não matar porque um ser humano humilhado deseja vingança. A vingança sempre fez parte do meu coração rancoroso. Portanto, não consigo imaginar alguém que não funcione dessa maneira, embora saiba que a raivosa sou eu. Enfim, escrevo porque preciso, porque se não fossem as palavras, estaria planejando a morte do governador e sua turma. Felizmente, consigo fazer melhor, consigo me manifestar com a dignidade que eles insistem em arrancar de mim, sem me tornar uma bandida, embora tenha sido tratada como tal no dia de hoje. Dia que ficará para a história, infelizmente aconteceu e temos o dever de não esquecer.


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