Um movimento errado



Ser uma bailarina profissional não é meu sonho. Viver disso, brilhar em palcos famosos, são coisas que não passam pela minha cabeça, talvez até tenham passado um dia, mas não hoje. Adulta e apaixonada pela minha profissão, encontrei no ballet a melhor opção de exercício físico, mas o que sinto vai muito além da necessidade de cuidar da saúde por mera obrigação. Eu realmente gosto das aulas, das dores, dos ensaios, das apresentações. Posso estar no meu pior dia que na aula esqueço de tudo e me realizo ao explorar cada centímetro do meu corpo e dos meus limites, ao me esforçar para me superar. Uma terapia. Uma escolha. Parte fundamental do meu cotidiano. Cor à minha vida.

No dia 07 de dezembro de 2014, durante a apresentação da coreografia do jazz, minha patela se deslocou pela segunda vez – a primeira tinha sido em 2009, quando eu nem pensava em fazer ballet-, saiu do lugar, “foi pro lado” como costumo explicar aos outros, luxou e arrebentei o ligamento femoropatelar medial (só a internet pra me ajudar com esse nome) ou, arrebentei  tudo o que tinha para arrebentar como disse o médico que antes me acompanhava. E a experiência foi horrível. A dor física que por alguns dias não me permitiu pisar direito e por um mês fez com que fosse impossível dobrar a perna, era muito pequena comparada ao meu emocional dilacerado. Eu chorava e ainda choro ao lembrar, inconformada por ter me dedicado tanto aos ensaios exaustivos e ter como consequência uma luxação que não me permitiu terminar a coreografia. Não poderia ter acontecido dois minutos depois? Não poderia simplesmente não ter acontecido?  Como já afirmei em outros textos, ouvir histórias de superação e de gente que sofre com problemas maiores, até me comove, mas nunca me consola, minhas dores são sempre maiores e o que aconteceu naquela noite foi um golpe que me derrubou em todos os sentidos.

No mesmo mês, recebi de aniversário uma bailarina e o livro “A bailarina fantasma” de Socorro Acioli, presente das minhas amigas Samara e Fernanda. Entenderam tanto minha dor que escolheram um presente que foi o abraço forte que a distância não permitiu que me dessem naquele momento, foi o consolo, acompanhado do cartão que transcrevo uma parte: “não poderíamos deixar de nos fazer presentes em mais este aniversário. Especialmente neste ano, além dos desejos de praxe (mas igualmente de coração), saúde, paz, amor, desejamos também paciência para superar os obstáculos que eventualmente a vida nos coloca. Tudo acontece por algo e temos certeza de que ficar um pouco afastada da dança terá uma importância para você que, talvez, só fique clara mais para frente[...]”. As palavras me comoveram tanto, porque afinal era só disso que eu precisava, de alguém que fosse capaz de me consolar e dar algum incentivo em vez de dizer o que eu deveria ou não deveria ter feito para evitar o que aconteceu, ou que tinha gente sem perna, entrevado em uma cama sofrendo mais do que eu.


Quando troquei de médico, a explicação: um movimento errado, bobo, aconteceu. Simples assim. Movimentos errados não deixam de ser escolhas, mas não se tratam daquelas conscientes que ao fazer, sabemos quais serão ou poderão ser as consequências. Movimento errado é escolher andar de um lado da rua e pisar num chiclete ou ser pego por um ônibus desgovernado ou chegar ao local de destino sem que nada aconteça. Pode ser um escorregão ou uma paixão. É colocar uma bota sem verificar se tem aranha marrom e ter uma a sua espera, ou não. É atender o telefone. Movimentos errados fazemos todos os dias, ao levantar da cama, ao querer fazer muitas coisas ao mesmo tempo, carregando cinco coisas em duas mãos ou cinco toneladas em uma alma, para ganhar tempo, para atender as expectativas dos outros, para sermos admirados ou simplesmente para que ninguém nos note. E por que algumas pessoas se culpam tanto?

Durante um bom tempo fiquei revendo o vídeo para tentar compreender o que eu tinha feito de diferente dos ensaios. Não encontrei nada. Não existe nada. No ano anterior minha roupa tinha arrebentado, o vestido desceu até a cintura e continuei dançando, apenas com um tapa que havia colado nos seios, felizmente. Achei até engraçado, não fiquei constrangida, mas me culpei por ter amarrado muito forte o vestido. Desta vez, tentei encontrar uma atitude específica, como o nó do vestido, mas não encontrei e então os outros me deram e aceitei de bom grado a ponto de sair repetindo por aí: Sobrecarga, muito ensaio, falei para não fazer jazz e ficar apenas no ballet, falta de oração (isso eu não repito).  Por que culpamos os outros pelos movimentos errados?

Penalizamos as pessoas afirmando que se trata de preocupação. Será? Agora, aqueles que amo e sei que me amam, me dizem com todas as letras que não devo incomodá-los se acontecer de novo porque escolhi, escolha consciente que já não é mais um movimento qualquer, com o consentimento do médico, voltar para os exercícios do ballet e não para a dança, como eles pensam porque, ao contrário do médico, não se interessam em aprender a diferença entre uma coisa e outra, assim como os médicos anteriores também não o fizeram. Mas eu não sou diferente deles, também estou sempre avisando, alertando e justificando os movimentos errados dos outros. Essa necessidade de explicar tudo nos leva a ilusão de que temos tudo sob controle . Não temos, felizmente, porque a vida não teria graça nenhuma se fosse feita de movimentos e escolhas certas. Minhas amigas disseram que as coisas ficariam claras mais para frente, mas já começo a perceber de quantas esta patela solta já me salvou e sei que ainda vou aprender, antes e depois da cirurgia que aguardo ansiosa. Meu médico já alertou: “No ballet, você vai começar do zero, terá que aprender tudo de novo”.  Mas eu sei que o aprendizado não se limitará ao lazer que torna minha vida mais leve.

Graças ao movimento errado, ganhei o livro que citei acima. Foi a primeira leitura concluída no ano, uma história pura, bonita e leve que me fez companhia nas horas de aflição com a minha avó no hospital, na véspera do réveillon. A bailarina fantasma me encantou, assim como o próprio ballet, coloriu meus dias, acalmou meu coração e me fez enxergar a vida com um pouco de ternura, porque sei que sou muito amarga, mas também sei que já fui muito pior.


ps: Voltei a escrever no blog que iniciei em 2005 e, ano passado, fechei porque achei que estava me expondo demais. Após revirar o blog da minha amiga Fernanda, me motivei a fazer o mesmo que ela, ressuscitar o antigo ao invés de criar um novo.



Ps2: Quando estava terminando o texto, meu marido quase caiu da escada, ao invés de perguntar se estava tudo bem, logo pensei, o que será que ele fez?

Comentários

Que bom que voltou escrever Láh! Imagino a sua frustração com esse negócio do joelho, mas isso não vai te para não menina.
Sempre em mente, beijos!
Unknown disse…
Gostaria de ter a sua inspiração para essas coisas... Mas se quer saber também tinha parado com meus diários e esse ano voltei com tudo e tem sido bem interessante.

Olha, imagino a sua dor (em todos os sentidos possíveis) esses dias que machuquei de leve o joelho achei que fosse o fim do mundo... Como incomoda! Caramba!

Mas tenho fé que tudo vai dar certo. =D

Beijocas.
Unknown disse…
Obrigada Luiz, não vai mesmo, só o fato de poder voltar com os alongamentos já me anima!

Ana, também voltei a escrever diário, pois joguei fora todos os antigos e me arrependo profundamente, porque tenho uma péssima memória, tenho medo de envelhecer e não ter o que contar aos outros por não lembrar... Obrigada pelo apoio, por sempre estar ao meu lado!

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