A mulher que me alcançou



“Vivemos num mundo em que as pessoas se sentem mais seguras 
quando se tornam pés que esmagam. A mão que alcança exige
mais coragem, porque alcançar é sempre um risco – e esmagar
tem um final previsível.” 
Eliane Brum em Vida de Clichê, uma das colunas do livro 
A Menina Quebrada, Arquipélago, 2014.



Estou apaixonada, completamente seduzida, encantada, perdida num mar de admiração pela linda Eliane Brum, jornalista, escritora, documentarista. Corajosa, polêmica, politizada, simples, inteligente e muitas outras qualidades mais. Eliane me alcançou, logo eu que me sinto sempre fora de alcance, incompreendida, fui fisgada por essa mão sensível que escreve com todo amor e toda dor que uma alma é capaz de expressar.

A menina quebrada, livro que reúne esta e outras colunas de Eliane Brum, é o responsável pelo nosso encontro. Eu já havia esbarrado com ela na internet e lido dois textos que me marcaram,  “Pela ampliação da maioridade moral” e “Chega de torturar mulheres”. O primeiro sobre a redução da maioridade penal, o segundo sobre a permissão do aborto de anencéfalos que agora já é um problema a menos, mas quando ela escreveu ainda não. O primeiro me fez ser hoje contra a redução, coisa que na época não era por pura falta de informação. O segundo, ampliou minha lista de motivos para continuar lutando pela descriminalização do aborto. Ambos, como todos os textos da jornalista, recheados de argumentos. Mas, foi em A menina quebrada que realmente me identifiquei, me senti acolhida, abraçada e também apanhei um pouco, levei alguns – ou melhor, muitos- chacoalhões.

As colunas discorrem sobre uma variedade de temas, mulheres, pais e filhos, relacionamentos, valores, preconceito,  meio-ambiente, minorias, política, filmes, livros, língua, direitos, deveres,religião, profissões, indústria farmacêutica, doenças, vida e morte.

Infelizmente, é raro encontrar um texto com posicionamentos para além de cima do muro e, principalmente, com argumentos bem construídos e conduzidos, sejam estes textos verbais ou não. A imprensa está cada vez mais precária, tendenciosa e nas redes sociais têm muita gente achando que sabe tudo, jogando um conjunto de afirmações que um outro tanto de bobos engole e compartilha sem, sequer, fundamentá-las. Por outro lado, temos muitas maravilhas que a internet é capaz de nos proporcionar, Eliane Brum é uma delas. Ler seus longos textos demanda apenas boa vontade. A cada leitura finalizada, uma ou várias reflexões. Palavras que nos fazem enxergar o mundo de outra maneira, olhar para nossa própria vida e pensar “O que estou fazendo?”, mudar, ter novas ideias, começar. Palavras inspiradoras.

Eliane não tem medo de apontar os problemas da nossa sociedade, bem como os verdadeiros culpados e os caminhos para solucioná-los.  E faz isso porque é a personificação da esquerda, porque aborda os assuntos com propriedade, respeita todos que defende ou critica, pois se esforça em conhecê-los no sentido mais pleno da palavra e, principalmente, possui um profundo carinho e respeito por seus leitores.

Terminei a leitura emocionada, devorei cada palavra, não no sentido de ler correndo – demorei cerca de dois meses -, mas de agarrá-lo a cada instante, de não dormir sem ler ou reler uma página, de não passar um dia sequer sem sentir tamanho prazer. É dolorido fechar o livro, é como se eu não estivesse preparada para tanto. Quero outro. Continuo lendo na internet, inclusive essa semana li a coluna que gostaria de ter escrito, “A mais maldita das heranças do PT”, pois estou ali. Mas a experiência do livro foi única. É como início de relacionamento, depois de alguns anos a gente sempre tenta voltar àqueles momentos incríveis, mas estamos em outra fase, não é possível retomar e nem tornar esses momentos eternos, eles passam. A experiência com um bom livro é assim, única e finita. No entanto, assim como encerrar uma fase no relacionamento, ao fechar um livro sentimos, mas sabemos que não estamos sozinhos, temos um ao outro, experiência e força para o prazer e a dor da próxima fase.

Não preciso ter nenhuma bola de cristal para saber que a maneira como elogiei Eliane só fará com que a maioria não a leia, mas não estou escrevendo uma resenha para indicar a leitura. Perde quem não lê, ganha quem se aventura. O que é escrevo é quase uma carta de amor para agradecê-la, por existir, por escrever, e para me declarar apaixonada.  Na abertura do livro, Eliane escreve “Cada texto é uma carta – e toda carta só se realiza se encontrar seu destinatário...”. Me encontrou, obrigada!



Viver, Catarina, é rearranjar nossos cacos e dar sentido aos nossos pedaços, os novos e os velhos, já que não existe a possibilidade de colar o que foi quebrado e continuar como era antes. E isso é mais difícil do que aprender a andar e falar. Isso é mais difícil do que qualquer uma das grandes aventuras contadas em livros e filmes. Isso é mais difícil do que qualquer outra coisa que você fará” (E. Brum, A menina quebrada.)

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