molde quebrado

Temo conversas a dois cujo meio de comunicação se limita a fala. Sou sensitiva, meus olhos contrariam tudo o que digo, o toque me desmancha, o silêncio que me fascina, me assusta. gosto do mesmo vento que me apavora e tamanha contradição confunde  àqueles que querem solucionar o que não vejo como problema, que desejam compreender meu comportamento incompreensível, meu sorriso falso, malicioso e ao mesmo tempo sincero.

Sustentamos a recíproca falta de confiança, os mistérios que nos calam e os medos que atormentam a ponto de aprisionar. Sustentamos o sofrimento por antecipação, a eterna dedução .

Sonhei que o feri. Quantas vezes eu quis machucá-lo? Pedi as contas. Mas quando o matei, me vi, pela primeira vez, culpada, arrependida e querendo explicar o inexplicável. Acordei sentindo medo de  mim mesma e me questionando. Se isso acontecesse, como eu voaria sem culpa? Com que forças eu voaria? Como interpretaria a vida como rara e os instintos como prioridade sobre a razão?

Salto facilmente da alegria a tristeza, das regras a agressão à moral, do medo a coragem, com a facilidade e abertura que gostaria de saltar na dança, cuja beleza me encanta. Qualquer beleza me deixa perdida. Qualquer instante é um momento para as estórias que invento. Tudo é combustível para mergulhar num imaginário que se desvenda como o real do meu ser introspectivo.

Me calo porque o barulho me incomoda, a voz estridente que se autodefine me irrita. Me calo porque não sou de falar, prefiro ouvir;  a música, a respiração pesada, a pulsação do coração, porque prefiro flagrar e ser flagrada num olhar que o dia que não vier acompanhado de um sorriso torto, será um sinal para, finalmente, me deixar.

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