Testamento


Se morro, serei mais uma. Mais um corpo embaixo da terra cujo último desejo talvez fosse ser espalhado no mar que sempre amou, sob um sol que sempre o protegeu, como tantos outros corpos.

Se parto, vou com a certeza de que vivi um grande amor. Amor esse incompreendido por muitos que desejaram rotulá-lo como os demais, moldá-lo, encaixá-lo no padrão utópico dos relacionamentos amorosos. Amor esse que não diz respeito a esses muitos, que só interessa a mim e a ele. Amor que sobreviveu até o meu fim, mimando, cuidando, sorrindo. Amor que deixa uma casa construída, mas não explorada. O lar desejado que não teve tempo de ser vivido e que, talvez, fique abandonado. O desejo de um filho que não teve tempo de ser concebido. As alianças que não ficaram prontas. Se vou, deixo esse amor que demorou tanto para me encontrar.

Despeço-me com a certeza do amor incondicional de minha família que sempre fez todas as minhas vontades, sobretudo o da minha irmã, que tratou dos mimos como uma mãe, que se jogou sobre meu corpo sem nenhum medo, que terá dificuldades em lidar com a minha ausência.  Família que me deu o necessário e mais um pouco, que não mediu esforços. Família que, por eu ser tão ranzinza, talvez não saiba quão fundamental foi para que eu me mantivesse viva, talvez não saiba o quanto foi amada. Vou sem querer deixá-los, vou apegada, vou querendo ficar.

Se morro, deixo poucos amigos que torceram por mim, estiveram comigo, foram irmãos e também os que torceram contra e fizeram-se de amigos achando que nunca percebi a inveja, o silêncio diante do meu sucesso, do meu conhecimento – por vezes superior- e de minha beleza que nunca precisou de muito esforço para aparecer. Vou sem matar a saudade de duas grandes amigas que estão geograficamente longe, mas sempre muito presentes.

Se parto, deixo uma risada estridente para seus ouvidos; a lembrança de um olhar cheio de significados; do sorriso forçado, sarcástico e também do sincero. Deixo meu silêncio, a preguiça de pessoas e suas histórias chatas, a intolerância aos papos de adolescente, a sabedoria de ouvir- o que você, provavelmente, sentirá mais falta.

Se parto, deixo as contas pagas em dia e um pouco de dinheiro que deve ser dado a quem sempre adorou gastar, minha mãe. Todos os livros para quem os adora, Ana Letícia. Deixo milhares de escritos pela casa, o vício da pizza e o desejo de emagrecer, a má vontade com a academia, a paixão pela dança. Deixo os alunos da Guarda que aprendi a gostar e os do colégio que sempre foram meu motor, minha terapia, minha esperança na educação.

O romance, que pretendi escrever, mas não o fiz; vai comigo e não fica para ninguém. O mestrado, que tive preguiça, fica para quem tiver vontade. A lista do que não consegui ou não quis realizar. As prioridades da vida que não sei dizer quais foram. O excesso de trabalho. A constante afirmação de tristeza, as reclamações, o mau humor, o ciúme, as implicâncias.

Se morrer, morro sem medo porque a morte não me assusta. Deixo pouca vida e também um desejo não muito intenso de viver. Deixo boas lembranças, poucas demonstrações de amor, mas grandes amores. Ficará a lembrança do meu egoísmo assumido, das feridas que abri e também as que consegui fechar.

Levarei meus rancores porque quando morrer, não me tornarei santa. Irei morrer rancorosa, vingativa, bonita e com algum conhecimento.

Se morro, morro sem música de despedida porque não tive tempo para isso. Morro, apenas, desejando que não fiquem lamentando, que não sintam muita dor, que não digam por aí que lutei, pois nunca lutei por nada. 

E deixo um pedido, não fiquem me olhando porque fico constrangida, não criem o hábito de me levar flores e velas porque nunca gostei disso, ocupem o tempo com outras coisas. O tempo que sempre que pude, aproveitei dormindo e não me arrependo disso. Aliás, não levo arrependimentos, eu acho. Só levo e deixo saudades!


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