Olimpíada Filosófica 2012


Não diferente da maioria dos professores de Filosofia, sinto dificuldades em seduzir os estudantes e despertar o interesse para a disciplina. Embora eu seja uma grande defensora do uso do texto clássico em sala, confesso que é muito difícil. A maioria não gosta de ler, muitos têm dificuldades de interpretação, escrita e todos ainda não estão familiarizados com a Filosofia devido ao fato de a disciplina ter se tornado obrigatória recentemente.  Curiosamente, no Paraná, ao invés de contribuir para a qualidade de sua efetivação, a Secretaria da Educação opta por reduzir as suas aulas e, com tal atitude, demonstrar que a Filosofia não é necessária a formação do cidadão. Curiosamente também, praticamente nos mesmos dias em que os debates acerca da nova matriz curricular efervesceram, ocorreu o evento da Segunda Olimpíada Filosófica do Paraná, organizado pelo NESEF. E é sobre isso que pretendo discorrer, afinal, não vejo maneira melhor de defender a permanência e inclusive a ampliação da Filosofia na educação básica.

A Olimpíada Filosófica é diferente das demais, não existem questões para responder e nem premiação. Montamos uma equipe, desenvolvemos um trabalho e, se atingirmos os objetivos, apresentamos no evento. Felizmente, foi o que ocorreu nas duas escolas com as quais participei - Shirley e Tiradentes/Sjp-PR .

A escolha de me envolver com esta atividade foi, talvez, a melhor, a certeira que fiz no ano. Em ambas as escolas fui surpreendida pela dedicação, criatividade e vários talentos dos meus alunos que participaram sem que lhes fosse prometido nada em troca, pelo puro prazer de participar e, quiçá, filosofar.

Durante o processo criamos uma relação de intimidade, tornando o trabalho divertido. Eles viram que também erro, também tenho crises de riso. Eu vi que eles também sabem levar as coisas a sério.

Às vezes temos medo de ousar com os alunos porque achamos que eles não assumem compromissos. Confesso que no início fiquei apreensiva, com a sensação de que poderia ser abandonada a qualquer momento, mas esse sentimento acabou sendo substituído pela relação de confiança e companheirismo. Formamos uma verdadeira equipe, dividimos funções, nos separamos e nos unimos quando preciso.

Acredito que conseguimos fazer com que esses alunos se abrissem para a Filosofia, pois nosso grande problema em sala de aula é a barreira que é criada devido aos preconceitos que cercam a disciplina. Com isso, os estudantes se fecham e fica muito difícil chegar até eles. A Olimpíada rompeu a barreira, permitiu que trabalhássemos juntos e, principalmente, que os alunos olhassem para a Filosofia com outros olhos, percebessem o quanto é pertinente e, pasmem, tudo começou com a leitura de um texto clássico.

Gostei muito do processo, do resultado e escrevo isso com um profundo saudosismo. Sou muito grata aos meus alunos por terem entrado nessa, sem a motivação e o empenho deles, nada seria possível. Não foi só mais um trabalho, foi uma realização. É por isso que ainda acredito na educação, é por isso que a atitude do governo me entristece, é por isso que sou daquelas que, muitas vezes, briga pelos alunos.

Uma das etapas do trabalho consistia em gravar depoimentos dos participantes sobre a Olimpíada, o Alisson, do 2ºB do Colégio Tiradentes, disse o seguinte:

Na minha opinião a Filosofia serve para transformar o ser humano numa pessoa melhor. Eu acho que a Filosofia serve pra gente entender melhor o mundo, a gente conseguir compreender as pessoas. Na minha opinião assim, a gente têm uma visão muito pequena das coisas e aí quando a gente começa a estudar Filosofia, a criticar as coisas, a gente têm nossa visão ampliada, a gente consegue ver as coisas de um modo diferente, a gente encara a vida de um modo diferente, a gente passa a criticar situações que a gente acha ruim, passa a entender as situações de um outro modo de vista. Pra mim a Filosofia é essencial na vida de um homem, partindo desse pensamento”.

 Agora, o Estado vem e diz para esse aluno e todos os outros que a Filosofia não é importante e qual é o argumento mesmo? A realização da Olimpíada é a prova de que a Filosofia está viva e que, nas mãos dos alunos, é uma arma poderosa contra a alienação, o domínio intelectual. Ops, será essa a razão da diminuição de nossas aulas?


Confiram o resultado das duas escolas:

Tiradentes



Shirley:







Comentários

Samara disse…
Muito bom, Láh. Adorei a temática "filosofia, cinema e gênero" (poderia falar horas sobre) e vcs fizeram uma boa reflexão. Fico contente que exista espaço e que existam professores como vc fazendo belos trabalhos como esse. Alisson tem toda razão, que não façam o retrocesso de tirar filosofia da grade escolar, gostaria que tivesse tido da minha época e julgo essencial. Devíamos era incluir outras disciplinas que fizessem os jovens refletirem e se tornarem pessoas melhores.

Parabéns para você, pros alunos e todos os demais envolvidos.

E lugar de mulher é onde ela quiser!

p.s. ótimo te ver em ação, Láh, apesar de ter dado mais saudades suas!
Unknown disse…
Obrigada Sam, o tema é mesmo bastante interessante e envolvente! beijo

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