Lili
Não sou do tipo que levanta a bandeira e faz manifestos em
prol dos animais, que dorme com eles, beija na boca, muito menos daquelas que
abominam crianças e argumentam que os animais são melhores. No entanto, os
respeito. Não fico me engraçando com os bichos dos outros, sou quase que
indiferente a eles, mas amo as minhas.
Ontem, a Lili - que era a minha favorita, faleceu. Acho que
já nem acredito em Deus, mas penso que de alguma forma ela deve estar
descansando em algum lugar. Teve uma vida bem vivida. Catarina, veio de
Joinville, um grande presente para a família; gostava de passear na rua e foi
exatamente numa dessas voltinhas que seu fim começou, ao ser atropelada.
Deixava a filha, Julie, lhe morder o quanto quisesse, parecia nos olhar
sorrindo e era, acima de tudo, nossa companheira de todas as horas.
Quantos foram os momentos difíceis que sentei atrás da minha
casa para chorar sozinha e não consegui, pois nenhuma das vezes ela me
abandonou. Sentava ao meu lado e até chorava junto. Quantas foram as vezes que
ela saiu para passear, fechei o portão brava e ela implorou para que abrisse.
Ensinou a filha a fazer o mesmo, era inteligente, dócil, linda e caçadora... É,
em sua vida, caçou passarinhos, ratos, sapos, lagartixas. Gostava de brincar no
lixo do terreno abandonado e de virar a cama da vó quando ela não estava em
casa.
A Lili nunca nos abandonou e foi por isso que nos últimos
dias dediquei toda a minha energia a ela, cuidei como se deve. Cansei, chorei,
entrei em desespero enquanto ainda estava viva, mas fiz o que pude.
Essa perda serviu para me alertar a ser mais cuidadosa com a
Julie que sempre ficou em segundo plano, mas agora é a única e procura a Lili
por todos os lados, triste, desamparada.
A perda sempre nos leva a repensar os valores da vida, nos
deixa um vazio, um silêncio que grita dentro do peito por socorro, mas existe.
Sabemos que um dia vai acontecer, o como
nos incomoda, o quando nos traz comodidade
e a ilusória certeza de que ainda há tempo, de que não será hoje, nem amanhã,
mas um dia. E quando acontece, perdemos o chão.
Perdi a Lili, fico com as lembranças, com sua filha e,
sobretudo, com a gratidão pela excelente companhia que ela nos fez durante
todos esses anos, trazendo um pouco de alegria a minha casa que, infelizmente,
exala tristeza com frequência.
Fique em paz minha gordinha, porque você sim era da paz!!!!

Comentários
Seus textos são lindos, mas dessa vez eu vi mais amor.
Até quem não conheceu a Lili vai sentir saudades.
Abraços. Fique bem.