Antes do sono
Acomodou-se
no canto da cama, como de costume e como se tivesse que se limitar a um espaço
pequeno para que ele ficasse com o restante. Mas ele não estava ali e o frio
parecia invadir os vidros da janela para ocupar seu lugar e, enfim, abraçá-la. Revirou-se
algumas vezes a fim de ser abraçada, também, pelo sono. O sono que vinha com as surpresas dos sonhos
e que aniquilava a realidade. Mas os olhos continuavam estalados, vendo-o enroscar-se
com quem jurava não amar. Cerrava as pálpebras, mas a cena as infiltrava e
tomava o lugar do escuro. Somente as lágrimas afogariam os dois e conseguiriam
acabar com tudo, mas ela sentia demais para chorar. A viu sorrir satisfeita com
visível domínio, invejou seu prazer no mesmo instante em que foi invadida por
um sentimento de piedade, só não sabia por quem.
Decidida a canalizar o próprio
sofrimento, entregou-se ao livro de cabeceira. Mas antes, olhou mais uma vez
para sua dor. Ela chorava. Ele havia sumido. Extasiou-se com sua dor. Perguntou-se
sobre o que havia perdido naqueles segundos. Teria ele, definitivamente, as
deixado? Saltou da cama confusa. O vento surrava a janela. A casa continuava
fria e quase silenciosa. Teria ele ido embora? O alívio causado pela dúvida foi
substituído pelo susto de batidas incessantes na porta. Sabia quem era. Pensou
em não atender, em expulsá-lo, em amá-lo. Ficou com a última opção.
Abriu
a porta a fim de lhe conceder o lugar que havia sido ocupado pelo frio.
Deixou-se ser abraçada. Não disse nada, queria ouvir. Mas ele também não disse,
nunca proferia o que ela desejava. Não fazia promessas e também não tomava
decisões. Ocupou seu espaço e a fez esquecer o que repousava entre eles. Quando
começou a lembrar, ele a interrompeu propondo calmaria a sua alma atormentada. Aceitou
seguramente. Ambos sabiam que uma alma jamais encontra a paz em vida, o que não
os impediu de buscá-la.
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