sobre a (nossa) covardia de muitos
Romper, desistir, abandonar. Palavras que soam como covardia
devido ao mito construído pela humanidade de que o “não desistir” é sinônimo de
coragem e o contrário, covardia. No fundo, todos nós sabemos que é mais fácil a
continuidade do que a ruptura, sobretudo quando se trata de relacionamento.
Como explicar aos outros que acabou? Como saber se acabou?.
O que apagou a chama? Um descuido? Falta de atenção? Acúmulo de mágoas?
Decepção? Desrespeito? Mentiras? Ou tudo isso?. Como começar de novo, depois de tanto tempo? Como
encarar a realidade? Quantos e pelo quê irão me culpar? Melhor deixar como está
e não se preocupar com nada disso.
Romper é difícil, necessário e para poucos. Chega um momento
em que você percebe que a implicância aumentou e o interesse diminuiu, de ambas
as partes. Antes, havia troca de leituras, aprendizados, músicas, filmes. Tudo que
um escrevia, tinha no outro o primeiro leitor. Tudo que um gostava, era para o
outro a primeira dica. Agora, um se interessa por todo tipo de porcaria que não
seja apreciar as atividades do outro. Antes, os desentendimentos eram raros e
isso era motivo de orgulho. Agora, basta um olhar. Antes, havia confiança.
É doloroso admitir
que as coisas estão sendo arrastadas há algum tempo. Sofre, aquele que percebe que é o único a levar os
planos adiante, mas que, ao mesmo tempo, também não está certo de levá-los a
sério, de ser o que realmente almeja. Sofre, aquele que se obriga a relatar
todos os acontecimentos do dia devido a cobrança desconfiada. Indignação,
daquele que espera. Orgulho ferido, do que se sente seguro. É doloroso olhar
para trás e ver que todos os sacrifícios e esforços resultaram em nada. É
assustadora a sensação de que você não conhece quem está ao seu lado, temer o
caráter dessa pessoa, as surpresas que estão por vir. É humilhante se
arrepender das chances por ter certeza, desde quando foram concedidas, de que
seriam em vão.
De repente, as mágoas, os deslizes, as decepções esmagam todas
as coisas maravilhosas que fizeram o relacionamento parecer, durante um tempo,
diferente de todos os outros do mundo, coisa de alma-gêmea, coisa de novela que
só não se enfrenta dificuldades no final. De repente, esquecem de quando um
pensava em ligar e o telefone tocava no mesmo instante. O primeiro encontro, a
noite fria no carro, o bate-volta no show, os gastos com celular na época em
que a TIM não tinha dado uma de louca, o presente infantil, os segredos, as
crenças, a cumplicidade, o sentir-se vivo. De repente, se esquece de tudo isso
porque o que invade é a lembrança da mensagem num sábado de manhã, é a defesa
do errado com unhas e dentes, o não ouvir, o não comunicar, as esperas, as
histórias escondidas e também as inventadas, a vingança ou a tentativa de
vingança. De repente, aversão, provocação, necessidade de ferir.
Chega-se a tudo isso, a crise final cujo sofrimento
arrastado terminará com um ponto. Eis o momento crítico, dois covardes que não
conseguem romper, simulam ter tido só mais uma briga e optam pelo silêncio e
ausência que os mantém livres um do outro para respirar novos ares, mas, de
certa forma, presos ao que não foi devidamente resolvido.
Começar e seguir em frente todos conseguem. Admiro mesmo é
os que passam a tesoura nos laços já entraçalhados.
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