Três garrafas


Julia levantou-se sonolenta, o relógio anunciava seu atraso. Amarrou as sacolas a fim de colocá-las na lixeira antes de iniciar suas tarefas diárias, deduziu que o caminhão passaria em breve, afinal, era sempre assim, toda segunda pela manhã os lixeiros a acordavam. Enganchou todas as sacolas nos braços e as levou. Ao abrir o portão, notou que havia três garrafas de água cheias e em pé sobre a lixeira. Sem questionar a causa daquilo, as afastou e empilhou as sacolas como pôde.

Lavou as mãos. Esquentou a água para o café. Tomou banho. Vestiu-se. Caprichou na maquiagem. Trocou de roupa. E trocou de novo. Escolheu a sandália. Colocou um tênis. Esqueceu da água. Desistiu. Tomou café velho. Escovou os dentes. Retocou o batom. Saiu.
[...]

Chegou. Hora de almoçar.

Todas estavam reunidas em volta da mesa quando a avó perguntou sobre quem havia arrumado o lixo. Julia levantou o braço sem se dar ao trabalho de respondê-la verbalmente. Desesperada, a avó gritou:

“e as garrafas?”
“que garrafas?”
“as três garrafas que estavam na lixeira”
“não lembro!”
“não tinha nada quando você colocou o lixo?”
“acho que sim, não lembro vó!”
“meu Deus minha filha! Tinham três garrafas cheias e afastadas uma da outra, bem arrumadas”
“qual é o problema?”
“deve ser feitiço! Você não poderia encostar, esqueci de avisar e, se precisasse encostar, tinha que ser com a mão esquerda, para não pegar o feitiço”
Julia riu.
“você brinca com tudo. Não acha estranho aparecerem três garrafas cheias da noite para o dia?”
“não, elas podem ter esquentado no carro de alguém, sei lá...”
“três? Exatamente três? O número do azar”
“não era treze o do azar?”
“tudo que tem três!”
“alguém tomou aquela água?” perguntou Cintia, mãe de Julia, entrando na discussão.
“Não” responderam
“então ta tudo bem!”
“por que, mãe?”
“isso é coisa da Vânia, ela deve ter colocado veneno nessas águas, quer me matar para ficar com seu pai”
“veneno? Ela fez macumba! Quem é que iria tomar águas largadas no lixeiro?” insistiu a avó
“ela sabe que eu cuido do jardim pela manhã e sempre levo minha água, ela pensou que eu me confundiria. Ainda bem que os lixeiros passaram antes, eu sempre coloco minha água ali e bem que vejo que ela me observa do outro lado da rua. Foi Deus que me salvou dessa!”
“mãe! A Vânia pode ser uma vagaba, mas não é uma assassina né? Menos!”
“você não sabe do que ela é capaz” argumentou Cíntia
“foi macumba, boba! Feitiço pro João não fazer mais nada com você”
“então se eu pegasse era meu namorado que não faria comigo, vó?”
“você anda fazendo isso menina?”
“não mãe, ela está brincando. Era veneno”
“Feitiço”
“Esquentou no banco de algum carro”

João chegou atrasado para o almoço.
“qual é a pauta da reunião?”
“garrafas de água na lixeira” respondeu Julia.
“essas que os meninos da frente deram de deixar quando vão jogar bola na rua?”


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