Há algumas semanas mergulhei num profundo estado de tristeza. O trabalho estava sendo uma espécie de fuga desse sentimento, sorrindo, eu de fato me sentia mais tranquila e menos triste na companhia dos meus alunos. Mesmo assim, cheguei a pensar que estava na profissão errada. Novamente a vontade de ir embora e cortar relações com todos e tudo que me incomoda, foi forte. Em seguida, concluí que isso me levaria a solidão no sentido mais pleno da palavra, ficaria sozinha e cumpriria minha vontade de me esconder num buraco escuro dentro de mim mesma. E questionei: será que não nasci para ter laços familiares, amigáveis e amorosos? E a resposta foi: o problema sou eu e não os outros.

Saber que antes de me mudar para outro lugar, deveria mudar a mim mesma, não me ajudou muito. Continuei sem conseguir escrever, ler, estudar e produzir algo que prestasse. Até comecei a fazer exercícios físicos e não notei nenhuma mudança no meu estado de espírito. Como diz meu namorado, com sua habitual gentileza “uma má vontade para com o mundo”. De fato, isso define meu momento e talvez minha personalidade. Embora ele seja incapaz de entender as causas por estar muito preso aos seus pré-conceitos, acertou no que disse, mas isso não é novidade para ninguém.

Percebi que estava experimentando a melancolia e ontem, quando cheguei em casa, relembrei o que é dor de verdade. Uma colega que tinha praticamente  a minha idade, morreu e morreu lutando para viver. Há quem ache que só devemos sentir a partida daquele que for sangue do nosso sangue, ou muito próximo, mas ontem descobri que só consigo sentir a partida dos alegres, otimistas, daquelas pessoas que não têm má vontade para com o mundo, das pessoas que sonham, lutam, nos fazem rir e estão entre nós para aliviar o tédio da vida. De pessoas que são diferentes de mim e, por isso, conseguem dar um pouco de sentido ao meu vazio. É claro que isso é uma teoria racional, uma tentativa de explicar o fato de eu ter sentido apenas duas mortes em toda minha vida e, coincidentemente, de duas pessoas que não me eram próximas. No entanto, tenho um coração e possivelmente vou sofrer muito quando perder alguém que amo, seja esse alguém igual a mim ou não. Afinal, não sou um ser repugnante, pelo contrário, sou um doce, apesar dos pesares.

Diante de tudo isso, acho que Renato Russo tinha razão, “os bons morrem jovens”. Foi o caso da Fabi e é exatamente isso que causa um inconformismo, nunca a vi reclamando de nada e ela tinha motivos para isso, tinha motivos para se revoltar com a vida e, no entanto, lutou e esbanjou alegria e generosidade nos seus poucos anos de vida. Admiro e sinto por não ter ficado mais um pouco.

Apesar de meus pensamentos suicidas, a triste notícia num momento triste da minha vida, me faz repensar o que tenho feito de mim e dos outros, me faz pensar que devo preparar minhas aulas com um pouco mais de carinho e dedicação, me faz pensar que devo ser mais presente na vida das pessoas, mas isso não consigo, faz parte da minha personalidade o distanciamento e não me culpo por isso, só me culpo, às vezes, por ser tão fechada e preguiçosa com as pessoas e os acontecimentos do dia a dia.

Se não vou me matar, o melhor mesmo é que eu aprenda a lidar com a tristeza de uma maneira produtiva ao invés de me deixar degenerar por isso. Todos têm momentos de tristeza, precisamos tanto dela quanto da felicidade. O discurso de que devemos ser felizes o tempo todo é hipócrita, o coitadismo da tristeza é revoltante.

Sobre a morte, nascemos para morrer, é uma certeza absoluta, mas lidar com ela é talvez nossa maior dificuldade, principalmente no meu caso, que tenho problemas com deus, religiões e crenças. Sobre a vida, é muito mais que tudo isso.

Comentários

Unknown disse…
Ainda é difícil lidar com a perda da Fabi. Mas após o impacto inicial, o primeiro pensamento que me veio a cabeça foi exatamente esse: o que que eu tô fazendo da minha vida? Bela reflexão, amiga. Vamos ficar juntas em mais essa.
Samara disse…
Refletir sobre o que estou fazendo da minha vida ou como anda minha vida sempre me sufoca, mas é o primeiro passo, né? E ele é sempre o mais difícil. E faço minhas as palavras da Ferdi, estamos juntas em mais essa, e em todas que vierem, boas e ruins. E que as boas predominem. Te amo.
Unknown disse…
Obrigada meninas! =D

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