Eu não falo como escrevo. E você?
“Tirou-se uma frase avulsa de um livro didático e criou-se uma histeria coletiva.
Só quem jamais deu aula na vida pode imaginar que o livro,
ao mostrar ao aluno que existe ‘os menino’,
faz com que ele aprenda errado.”
Cristovão Tezza, escritor e professor aposentado de linguística da UFPR
e um dos nomes da literatura que tenho profunda admiração e respeito.
Não sei o que é mais revoltante, se é o trabalho sujo da velha mídia ou a ignorância daqueles que o consomem e, como se não bastasse, o propagam. A polêmica da vez gira em torno da distribuição do livro didático Por uma vida melhor que possui um capítulo intitulado Escrever é diferente de falar. Antes de qualquer coisa, alguém discorda do título? Se você discorda, pode ser que não tenha se dado conta, mas está disseminando na sociedade um dos oito mitos elencados por Marcos Bagno, no clássico Preconceito Linguístico. É, portanto, uma pessoa preconceituosa e não adianta torcer o nariz. “O certo é falar assim porque se escreve assim” é o sexto mito que Bagno se dedica a desconstruir em seu livro e o primeiro que o didático, logo no título, quebra. Algo que, aliás, todo mundo já deveria saber, ou melhor, admitir, visto que sabem que “não existe nenhuma ortografia em nenhuma língua do mundo que consiga reproduzir a fala com fidelidade” (Bagno).
Ainda presas aos conceitos de “certo” e “errado”, as pessoas se posicionaram, com argumentos lamentavelmente ultrapassados, contra o livro didático. Quero acreditar que essas pessoas não leram o capítulo e por isso estão espalhando por aí que o livro é uma “celebração da ignorância”, um regresso da educação. Prefiro acreditar que não leram, porque, enquanto professora, devo entrar em desespero caso tenham lido, pois isso significa que não têm a mínima capacidade de interpretação e, aí sim, estamos diante de um grande problema. Ou seja, além de termos que lidar com o problema de uma mídia relativamente pobre e um público extremamente manipulável, além do problema da fome, da miséria, da preguiça de pensar, da homofobia e tantas outras barbaridades, temos que admitir e enfrentar os letrados que não conseguem interpretar um texto e se comportam como se soubessem. Temos ainda que engolir esses indivíduos lá na Academia Brasileira de Letras (hã?). É, a Academia que colocou Paulo Coelho, como meu amigo Luiz ousou lembrar, como membro.
Se você ainda não teve o prazer de ler Preconceito Linguístico, indico. Caso já tenha lido, vale à pena lembrar quais são os mitos que precisamos superar para acabarmos de uma vez com um dos preconceitos mais marcantes que temos no Brasil. São eles:
Mito nº1 – “A língua portuguesa falada no Brasil apresenta uma unidade surpreendente”
Mito nº2 – “Brasileiro não sabe português/ Só em Portugal se fala bem português”
Mito nº3 – “Português é muito difícil”
Mito nº4 – “As pessoas sem instrução falam tudo errado”
Mito nº5 – “O lugar onde melhor se fala português no Brasil é o Maranhão”
Mito nº7 – “É preciso saber gramática para falar e escrever bem”
Mito nº8 – “O domínio da norma culta é um instrumento de ascensão social”
Não vou reproduzir o livro aqui, mas cito os mitos para que percebam que muitos deles estão presentes no posicionamento da mídia e do público, ambos presos a uma visão de educação mais do que ultrapassada, reproduzindo uma fala mais do que morta. Não seria essa, talvez, a razão de nossos alunos terem profunda aversão pela disciplina de português, sobretudo, literatura e escrita?
Ainda em tempo, estou muito feliz pela iniciativa dos autores e pela aprovação do livro, acredito que é um grande salto que nossa educação, felizmente, conseguiu dar. Resta-nos agora, preparar os velhos profissionais para isso. Além da pertinente discussão linguística, o livro traz atividades que trabalham diretamente com a construção de um texto, algo que só fui aprender na faculdade, porque na escola não souberam me ensinar o que é fundamental num bom texto e como é possível realizá-lo. Era apenas MUITO BOM, MELHORAR, REGULAR, ÓTIMO. E eu nunca soube o que estava ótimo e o que estava regular...
Aos que pretendem se posicionar, concordando ou discordando, por favor, leiam o capítulo do didático antes de qualquer coisa: AQUI
Comentários
Meu Blog
http://palavraseessencias.blogspot.com/