Eu e Jenny


“Colegiais tolas sempre são seduzidas por homens mais velhos”. (Jenny em Educação)

Meu namorado está dezenove anos a minha frente. Em cultura, experiência e necessidades. O que nos une é o sentimento e a compatibilidade de opiniões, as afinidades.

Em Educação, Jenny, que assim como eu é um tanto madura para a idade, se envolve com um homem bem mais velho que, sem muito esforço, conquista não só a garota, mas também e sobretudo, a confiança dos pais, que a largam com ele sem o conhecerem. O mesmo acontece aqui em casa, minha mãe e minha avó sempre confiaram no meu namorado sem saber nada acerca da vida dele, sem saber quem ele realmente é. Se saio com ele, não há motivo para desconfiança, controle de horário etc

Jenny encontra em David o que até então não havia encontrado em qualquer outra pessoa, ele é alguém que tem o espírito dos seus sonhos. É o homem que vai levá-la aos lugares que deseja sem que precise implorar por isso. Quem irá arrancá-la da mesmice que é a vida de uma adolescente cuja educação não é a maior, mas a única prioridade. Trata-se de alguém que, simplesmente, pensa como ela. E posso garantir que esse é o sonho de mulheres/ meninas inteligentes. Só queremos alguém que compreenda e compartilhe nossas preferências e, por que não, alguém que possa nos ensinar, acrescentar algo. Encontrei em meu namorado esse alguém.

Seria tudo perfeitamente encantador se não fosse a crueldade da diferença de idade. Não pela diferença em si, mas pelo fato de que a experiência dos mais velhos dói em quem nunca as vivenciou, pois sobra para o inexperiente. O inexperiente não tem o direito de ganhar experiência na prática, porque o experiente o alerta sobre tudo. Meu namorado sempre sabe como as coisas vão terminar, o que, por vezes, destrói a beleza dos casais apaixonados.  David soube como seduzir Jenny sem que sequer precisasse fazer as promessas que os jovens adoram. Meu namorado, até hoje, só me prometeu uma coisa – e talvez seja por isso que eu acredite que vá cumprir – e também soube me conquistar sem muito esforço. Ambos só precisaram nos garantir que pensavam como nós. Foi preciso apenas que notássemos que tínhamos afinidades com eles – e muitas.

“Estou lendo Dom Casmurro”, disse meu namorado antes mesmo de trocarmos o primeiro beijo, sem saber (acredito) que esse é meu romance favorito. Aos poucos, quando se sentiu seguro, foi me revelando as verdades. A cada quatro meses uma diferente e mais intensa. “pense bem, você não precisa contar isso para ninguém, pode se poupar disso”. Sei que a intenção não era me poupar, mas prevenir o fim do relacionamento. Porque as pessoas não perdoam, julgam, falam, pressionam e eu, confesso, não resistiria. Foi esperto, como qualquer pessoa experiente e centrada. E eu não fui tola, percebi o jogo e entrei nele porque quis, porque o que ambos queríamos era ficarmos juntos e evitar as regras de conduta da sociedade. E é nesse ponto que me diferencio do Jenny.

A colegial aposta tudo em David. O fato de ele ter dado um ânimo a sua vida entediante, faz com que ela acredite que ele é, também, a saída, a solução de seus problemas e a chance da realização de grandes sonhos. Não consegui perceber amor, paixão. Apenas empolgação, pois ela encontrou num homem bonito e atraente a possibilidade de inúmeras realizações, inclusive sexuais. Felizmente nunca vi no meu namorado, nem no início, a possibilidade de mudar minha vida. Por ser meio cética, embora idealista, em relação ao amor, sempre apostei na minha própria solidão, achando que conheceria as coisas, visitaria lugares e experimentaria novidades, sozinha.

Não sei como meu namorado me conquistou, mas sei que não foi apresentando lugares.

David soube jogar com Jenny, mas ela, em momento algum, fez o mesmo com ele. Quando ela diz que se sente madura, mas não sábia, faz com que eu chore e pense no quanto esses jogos de relacionamentos podem ser prejudiciais às pessoas. Penso que são válidos quando não brincam com a confiança e a ingenuidade do outro.

Acho que meu namorado joga comigo para me manter no relacionamento e também para evitar frustrações a ele mesmo. Caso esteja me enganando, não estará só magoando a mim, mas a minha família e as amigas de longe que sei que acreditam na sinceridade dos sentimentos dele. De qualquer forma, revelo que acredito que seja incapaz de fazer isso.

Abusar da confiança do outro, é o pior crime que um ser humano pode cometer. Ser enganado é saber que foi não só tido como burro, mas sido de fato. E essa ferida, tempo nenhum cicatriza.

Educação é tudo isso: jogo, moralismo, confiança, idealismo, traição, dor. Educação é um retrato fiel do que só a vida pode nos ensinar. Coisas que não estão nos livros e nas escolas. Coisas que só aprendemos na prática. David, no fim, fez um bem a Jenny, realizou parte dos seus sonhos e ainda a preparou precocemente para a vida real.

Espero que meu namorado não se ofenda com texto, são apenas reflexões geradas por um filme somado a saudade e lembranças.

Indico o filme aos que desejam se envolver e refletir um pouco. É lindo!
Trailer


Comentários

Samara disse…
Já estava com vontade de ver esse filme, agora depois de todas essas suas reflexões fiquem ainda mais. Acho que vou baixar já.
Teu namorado não pode se ofender com esse texto, que é um primor. A menos que haja algo nas entrelinhas que o atinja e que nós, leitores inocentes, não tenhamos percebido.
Caso contrário, ele tem é que se orgulhar por ter ao seu lado uma mulher que, apesar de tão jovem, reflete com tanta maturidade acerca de assuntos que várias mulheres jamais conseguirão extrair uma lição sequer, contribuindo para o fim de tantos relacionamentos como se vê por aí.
Agora, se eu pudesse dar pelo menos um pitaco, diria: certas coisas, no amor, não precisam ser explicadas, nem tampouco vistas como um jogo. Precisam apenas ser vividas.

Um abraço!
Unknown disse…
Sam, se conseguir baixar legendado me avisa, todos vieram falhando e tive a infelicidade de ter que optar pelo dublado.

Antônio, concordo que nem tudo é jogo, seria muito sem graça se fosse assim. Até porque o jogo é no relacionamento e não no amor em si.
Gostei muito do texto!
Dica anotada!

Um beijo,
Doce de Lira
Um dos grandes filmes do ano, sem dúvidas, um tanto quanto subestimado.

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