para pensar

Charles Feitosa é autor do belíssimo livro “Explicando a Filosofia com Arte” (2004). Só pela iniciativa da obra, já tem meu respeito. Pelo resultado, minha simpatia e admiração.
Acabo de ler um artigo dele sobre o ensino de filosofia, “O ensino de filosofia como uma estratégia contra a tarefa da interdisciplinaridade” e de ficar escantada com a sua pequena conclusão. Transcrevo:

pequena conclusão

Segundo Nietzsche (“Shopenhauer Educador”) a educação é uma espécie de generosidade e tem como obstáculo diversos tipos de egoísmos. O egoísmo dos negociantes, preocupados somente com o que dá lucro e riqueza; o egoísmo do Estado, preocupado em manter o poder e formar gerações que sejam úteis às instituições vigentes; o egoísmo da aparência, daqueles que querem ocultar o tédio de suas vidas através da moda, do fausto, do “bom gosto” (Nietzsche, 2003). Mas o pior egoísmo é o da ciência e de seus seguidores: os eruditos. Os eruditos são egoístas, entre outros motivos, porque se preocupam muito mais com os problemas do conhecimento do que com os sofrimentos do homem. Além disso, os eruditos são aqueles que praticam um olhar sagaz para as coisas próximas, mas sofrem de miopia em relação ao longíquo em geral. Em suma, o erudito é um mestre na decomposição de textos e imagens em manchas fragmentadas sem coesão. Ficam satisfeitos com a estreiteza de sua visão como toupeiras ficam a vontade dentro de seus buracos. Os buracos dos eruditos são suas disciplinas. A prática transdisciplinar do ensino e da pesquisa na filosofia pode vir a ser um ato de resistência contra o egoísmo dos eruditos, uma estratégia de desarticulação dos buracos e de suas toupeiras, um espaço de liberdade para quem quer ser fecundo e ir além.

A conclusão de Feitosa é só uma parte bonita, profunda e provocante de um artigo que condiz com tudo o que penso sobre o ensino de filosofia, que mostra que não estou sozinha nas minhas críticas em relação a muitos que, após descobrirem o filósofo de sua preferência, tornam-se dogmáticos.

Comentários

Anônimo disse…
Nietzsche como um teórico da educação valoriza o homem (Ser). Essa valorização se dá através de uma educação que consiste tanto em educar o corpo como o espírito. Com essa educação bi-valente, o homem seria então capaz de se libertar (Pensar) das correntes sectárias. Entendo correntes sectárias como essa divisão que você citou. Concordo que a Ciência esteja dividida e existam diversos mestres em seus mais variados campos, tais mestres se isolam e não vão a lugar nenhum. Todavia, "após descobrirem o filósofo de sua preferência, tornam-se dogmáticos" não creio que isso de fato aconteça. Admito a hipótese da existência de tais pessoas, mas realmente não conheço nenhuma que de fato tenha feito isso. A educação brasileira, principalmente em Filosofia, necessita de um pesquisador que domine o "geral" para passar para seus alunos, tanto no Ensino Médio quanto para o Ensino Superior. No Ensino Superior, o professor vai poder se aprofundar mais e explicar aquilo que estuda, mas dificilmente fica SOMENTE naquilo. E no mundo, não é diferente. Muito da "História da Filosofia" está sendo mais que História em si, está abordando temas e fazendo Filosofia mesmo.

Vejo também uma confusão nos termos. Charles Feitosa, nesse trecho, parece tratar coisas muitos distintas umas das outras como ciência. Essa generalização das correntes sectárias não soa bem. Outra confusão é quanto a erudição. Um cientista não é alguém erudito, e sim inteligente. O ideal é que existissem apenas cientistas inteligentes e eruditos, no entanto, temos cientistas muito inteligentes e pouco eruditos. Ter erudição é justamente sair dessa "toca" e ver o conhecimento humano como um todo.
Unknown disse…
Bush, obrigada pelo comentário!
Sobre o que comentei a respeito dos que descobrem o filósofo de sua preferência, não generalizei, porque sei que não é com todo mundo que acontece isso. O Feitosa também não o fez em seu artigo e, é claro, o trecho que transcrevi é provocante e, por isso, extremista. Com certeza ele também não vê a erudição como algo prejudicial em si, assim como eu, pois penso que o que prejudica - e acredito que seja isso que ele queira dizer- é o fato de a pessoa priorizar isso e, digamos, deixar de lado a preocupação com o homem, que acredito que seja o mais importante quando o assunto é educação.
Vi muitos alunos e professores tomando como verdades absolutas os pensamentos de seus filósofos favoritos e se fechando nessa toca. Na PUC mesmo temos exemplos de pessoas que não possuem esse conhecimento geral a que você se refere e, ainda, um certo preconceito com outras correntes do pensamento e até com o que não é, academicamente, filosofia. Quanto aos cientistas, será que todos eles são inteligentes?
O que fica disso tudo é a preocupação que o Feitosa fala em fazer a ponte entre filósofos e não-filósofos. Acredito que essa ponte depende de uma pré-disposição de ambas as partes, mas isso já é outro papo... De qualquer forma, tento tomar cuidado para não ser preconceituosa com os especialistas, afinal, também pretendo ser uma o dia que me encontrar. O que quero é apenas alertá-los do quanto é importante ter um conhecimento geral, não só em filosofia, mas em outras áreas também e sem que esse geral seja superficial demais...
Anônimo disse…
Eu não vejo nenhum problema em você priorizar a erudição em si. Vejo problemas em a pessoa se tornar um completo alienado e esquecer que o mundo gira a sua volta. Existe um certo comentário para aqueles que estão estudando Teoria da História. O comentário é o seguinte: O historiador deve tomar cuidado para não ficar preso demais no passado e esquecer do hoje. Essa frase, no seu sentido mais amplo: Tomar cuidado para não ficar só na sua área e se tornar um idiota completo no resto é, talvez, a posição que qualquer pessoa de bom-senso deveria assumir. Problema: As pessoas não tem bom-senso. Não pelo menos como Aristóteles colocava. Se a "preocupação com o homem" significa tomar cuidado para não virar um idiota que só entende da sua área, concordo tanto com você quanto com o autor.
Anônimo disse…
Não é só na PUC que existem pessoas assim. Em qualquer área vão existir bons profissionais e profissionais não tão bons assim. Todavia, voltando para a Filosofia, eu vejo como um absurdo alguém estudar durante sua graduação em Filosofia SOMENTE Filosofia. É impossível que a pessoa não estude NADA mais além de Filosofia. Se ela consegue a proeza de unicamente estudar Filosofia, ela conseguiu a proeza de não estudar nada, uma vez que estudar Filosofia é não ter limites para aquilo que você está estudando. Pode existir aqueles alunos da graduação que tem uma preferência por Antiga, outros por Moderna e etc., no entanto, saber pelo menos a diferença entre Plotino e Agostinho é o mínimo que se espera de alguém que está se formando. Como não existe um rigor, uma boa análise de critério para quem entra e sai de uma graduação, acaba gerando esses monstros que estudam apenas um único autor e assumem uma posição dogmática em relação a esse autor. Que fique claro aqui que eu não estou falando que quem estuda apenas um autor e não tem posição dogmática alguma. Tenho uma professora de Antiga que estudou a vida inteira Aristóteles e Estoicismo, mas ela sabe se sair bem quando pedem a explicação de algo que não é necessariamente da área dela, como Kant por exemplo.

Esse problema de não ter campo para estudar determinado assunto é reflexo de uma formação ruim. Um professor nunca vai ser capaz de orientar você em algo que ele não conhece. Se ele tiver a boa vontade de estudar tal coisa, talvez exista uma chance, mas isso é raro. Isso resulta em uma Filosofia presa na - erudição - dos professores, e resumida a citações e talvez apenas uma exegese filosófica. Nem História da Filosofia chega a ser. Excesso de erudição e ausência de inteligência é as possíveis causas disso.

Em geral, os cientistas são inteligentes. Entendo inteligência como a capacidade de resolver problemas com aquilo que você tem disponível para resolver. E os cientistas são mestres nisso. Assim como as donas de casa,empregadas domésticas e vendedores de bala (reparou na velocidade que eles te dão o troco?). O problema em ser apenas inteligente resulta em um excesso de resoluções que não atingem outras respostas além daquelas obtidas anteriormente. Se fosse um cientista inteligente e erudito, ele seria capaz de transformar a ciência que ele produziu em de fato um conhecimento dos "universais", ou "geral".

De um lado, temos o professor erudito não-inteligente que se prende na sua área por medo. Do outro, temos o cientista inteligente não-erudito que se prende em seu campo de pesquisa pois é somente para aquilo que ele vê resposta.

Não entendi muito bem essa ponte entre filósofos e não-filósofos. Poderia explicar melhor o que você entende por filósofos e não-filósofos?

Não tenho nenhum preconceito com especialistas, quem tem é o Nietzsche que, me parece, não concorda com uma educação tecnicista e voltada apenas para a teoria. Nada contra quem estuda o movimento dos besouros, meu problema está na relação de poder que se dá na aplicação do estudo desse movimento.

Ter um conhecimento geral, ou "universal", ao meu ver, não é superficial. Pelo contrário, ele é geral justamente por ser capaz de se aplicar em diversos campos, e com profundidade. Por exemplo: Se quero ser um Pesquisador da Filosofia da Matemática, é no mínimo necessário que eu tenha as noções de Matemática necessárias. Essas noções valem para tanto um Filósofo da Matemática quanto para um Engenheiro, quanto para um Historiador da Matemática e por ai vai. Por isso não vejo um "universal" como algo superficial.
Anônimo disse…
Seria superficial talvez na seguinte questão.
-Sei que Napoleão foi Imperador da França.
Saber que Napoleão foi Imperador da França não é suficiente para você saber como foi que ele se tornou Imperador da França, e de que forma ele deixou de ser Imperador da França, sem contar tudo aquilo que ele realizou como sendo Imperador da França. Se a pessoa tem apenas esse conhecimento "geral", é superficial e nunca vai entender a complexidade dos Códigos Napoleônicos por exemplo.
Anônimo disse…
Acabei escrevendo mais do que deveria, mas enfim, deixo uma pergunta: Como você, como professora, é capaz de ensinar Filosofia para um aluno? O que esse ato de ensinar representa para você e para seu aluno?
Jeferson Cardoso disse…
Penso que a família se absteve da educação dos filhos e os transferiu para escolas, psicólogos, psicopedagogos...
Jefhcardoso do
http://jefhcardoso.blogspot.com
Unknown disse…
Bush, a ponte entre filósofos e não-filósofos se refere a professores e alunos, ou seja, entre alguém que já teve e tem contato com a filosofia e alguém que nunca o teve. Isso não quer dizer que alunos não possam ser filósofos e muito menos que todos os professores sejam, de fato, filósofos. A expressão se refere ao contato com a filosofia enquanto texto, conhecimento, disciplina e não ao filosofar em si.

Respondendo a sua pergunta, como sou capaz de ensinar, ainda estou aprendendo, errando aqui, acertando ali, mas costumo partir questioná-los antes de mais nada e, depois de conseguir transmitir conhecimentos sobre os conceitos, por exemplo, pedir que se posicionem, estabeleçam relações. A minha maneira de ensinar é estabelecendo relações, sempre fui a favor disso e acredito que é o que aproxima pessoas, culturas, conhecimentos etc.
Sempre quis ser professora, portanto, ensinar representa antes de mais nada uma escolha. E é uma escolha de trocas, eles aprendem comigo e eu com eles. É produzir sentido, acima de tudo!
Unknown disse…
jefhcardoso, tem razão, atualmente a família transfere para a escola mais do que deveria, porém, a escola não está fazendo nem o próprio papel direito. Há uma despreocupação muito grande em relação ao ensino, na verdade, um transfere para o outro a responsabilidade que é de todos!
Obrigada pelo comentário e seja bem vindo ao meu blog. É sempre bom ter novos leitores compartilhando ideias.
Déborah Simões disse…
lindo teu blog...
amei, Flor...
Unknown disse…
Obrigada Déborah, seja bem vinda !

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