sobre dois ou um

Penso que se sabe quando uma relação chegou ao fim quando se inicia uma discussão sobre ela. Por isso nunca gostei e geralmente me recusei a discutir relação, fosse de madrugada ou quando estava chateada, feliz, por telefone, mensagem... chegar ao ponto de pedir para que o outro mude algumas atitudes é o mesmo que mandá-lo embora. Ou você se conforma com as coisas como são ou desiste. Claro que se espera que no meio disso haja uma mudança repentina, um acordar por parte do outro, que torne desnecessária a escolha entre as duas opções. Mas isso nunca acontece, e desistir dói.

Dói porque o processo é agressivo, porque a sensação que fica é a de que houve enganos, principalmente próprios; porque a tentativa de esquecimento compete injustamente com a inexplicável saudade de, pelo menos, contar como foi o dia. Dói pela culpa de não ter desistido no início, quando tudo é mais fácil, e, paradoxalmente, pela sensação de que as coisas poderiam ser resolvidas de outra maneira.

O conformismo é ainda pior, as situações se repetem com mais frequência e intensidade, porque alguém na história sabe que o outro não vai fazer absolutamente nada, e uns dias de ausência e silêncio dão conta de apaziguar uma suposta raiva. Depois, tudo volta ao normal, como se ao entrar num relacionamento o indivíduo tivesse que, obrigatoriamente, renunciar ao orgulho e aquilo que considera seus próprios valores, em troca de amor(?). Se se é compreensivo uma vez, a exigência aumenta a ponto de querer que se seja sempre maleável diante dos absurdos que provém de um egoísmo exacerbado. Aliás, acredito que o egoísmo deve sim ser reconhecido e preservado, mas quando se tratam de duas pessoas, não tem como cada um só pensar em si o tempo todo, se for só para pensar em si, o certo seria ficar sozinho e se divertir com alguém(s) de vez em quando, e não entrar na vida de uma pessoa para satisfazer o ego. Portanto, não vale a pena discutir, pelo menos é o que penso, e às vezes sinto necessidade de transformar isso em palavras “certas ou erradas”.

Comentários

Samara disse…
Deixar de ser apenas EU para se tornar NÓS e sem deixar de ser EU é uma tarrefa bem difícil. Seja qual for o tipo de relacionamento, romantico ou não. É ter que ser capaz de se sentir na pele do outro, saber ceder, se doar, mas sem se castrar. E para funcionar tem que ser sempre uma via de mão dupla.
Unknown disse…
Perfeito Sam, conseguiu transformar meu longo texto em poucas linhas objetivas.
Unknown disse…
A maior lição que eu prendi dos tempos em que fiz terapia foi exatamente essa: a gente não tem o poder de mudar ninguém (que é o que tentamos nessas discussões sem fundamento). Mas temos o poder de nos afastarmos de quem quisermos.

O caso é saber usar esse poder sem sofrer, né?

Beijos!!!

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