Reflexões - 20/10/09


(Perder - 2002 - Arnaldo Antunes)


Volto para casa após uma viagem maravilhosa. Não sei se desejei essa volta, mas senti saudades de algumas pessoas. Em nenhum momento pensei nos problemas que havia deixado para trás e nos que iriam surgir... Após dias seguidos e intensos de êxtase e cansaço é impossível pensar no outro lado da vida. Mal cheguei aqui e o outro lado se apresentou, desta vez, ao invés de chorar, descontar fúria e dor nos outros, escrevi em meu diário e comecei a relembrar a semana da bienal de Curitiba que, como já escrevi aqui, mexeu bastante comigo. O que ainda não revelei foi o que Rubem Alves me causou.

Cerca de duas horas antes de sua fala ter início, guardei meu lugar na segunda fileira. É bom ressaltar que só havia lido alguns artigos dele, nenhum livro e não era sua fã. Extremamente sensível e temperado com uma inteligência incrível, Rubem Alves remetia suas palavras direto para o meu coração, arrancou risadas e, acreditem, lágrimas, não só minhas, notei que outras pessoas choraram quando ele chegou ao fim.

Enquanto Miguel Sanches Neto me concedeu uma luz no âmbito profissional, Rubem Alves fez com que eu acordasse para a vida, por meio de suas palavras, sorrisos e até mesmo seu silêncio. O interessante que é não foi uma coisa momentânea, com nenhum dos dois. Percebi a importância de ter ouvido o Rubem quando me vi diante de uma viagem quase que louca, porque eu estava desempregada, e ele só me ajudou a decidir que valia a pena (na verdade foi um apoio porque eu já estava decidida). E depois, num outro momento, lembrei da frase dele que talvez tenha sido a que mais senti, embora não seja algo muito diferente do que estamos acostumados a ouvir, acredito que foi o tom que ele deu as suas palavras.... “a morte nos torna sábios porque ela nos faz pensar naquilo que é essencial”.

Estar diante da morte, física ou não, e peneirar a vida, é um exercício não tão doloroso quanto seu resultado. E, talvez por esse ser meu pensamento quase que constante, eu sinta muita dor e tenha tanta pressa. Pressa em ver as pessoas que amo, e aqui me refiro ao olhar mesmo, telefone, e-mail, nada disso resolve meu “problema”, o meu grande problema de não saber esperar por temer que a espera seja eterna. Esta atitude de ser humano mimado, faz com que se exclua exatamente o essencial. Ações guiadas pelo medo não são saudáveis, prejudicam os dois lados, e é aí que mora – e se justifica- parte de minha agressividade. Lembrar das palavras de Rubem Alves faz com que eu tenha mais cautela com o outro lado da vida, que citei no início. Algumas pessoais, idéias ou até mesmo coisas, possuem um peso inimaginável em nossas vidas, por revolucionarem, de alguma forma, o nosso interior...


Laís Bastos da Silva

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