Músicas que dizem alguma coisa - 19/03/2009

Existem não só comentários, mas estudos acerca das histórias infantis, do que está por trás delas. São estudos psicanalíticos interessantíssimos e que pouco agradam aos professores de educação infantil e língua portuguesa, o que não é meu caso que, frequentemente, me espanto com o que dizem aqueles contos que as crianças veneram. Mas infelizmente ainda não li nada a respeito para formar uma opinião.
Assim como as histórias, algumas músicas infantis exaltam justamente o lado do ser humano que a sociedade reprime e que as crianças, que ainda obedecem aos seus instintos, adoram. Bem ou mal, essas músicas existem e são ensinadas na escola, a mesma escola que diz que não pode bater no coleguinha, manda atirar o pau no gato. Não sou a primeira a questionar isso, a música até já foi mudada, mas ainda existe. Sinceramente não sou a favor de reprimir nada, embora concorde que seja necessário. Assim como minha opinião, a educação em si é contraditória, é como se a escola ensinasse uma coisa e a vida outra.
Nunca gostei da Xuxa, nem quando era criança e, por isso, evito ouvi-la com as crianças, mas admito que o último cd dela possui algumas músicas pedagógicas e, embora a voz dela seja irritantemente chata, as músicas são até legais.
Quando comecei a trabalhar com educação infantil (ano passado), fui em busca de músicas e, felizmente, descobri o grupo Palavra Cantada , que na verdade é uma dupla, cuja bagagem de músicas além de agradarem aos nossos ouvidos, dizem alguma coisa. São músicas inteligentes, lindas e, muitas vezes emocionantes. Duas delas me deixaram, sinceramente, sem reação. Fiquei chocada – positivamente – quando as ouvi, impressionada.
A primeira delas é “Gramática”, a música é linda e extremamente profunda, prestem atenção na letra e, se possível, baixem a música, a melodia é uma delícia.
Assim como as histórias, algumas músicas infantis exaltam justamente o lado do ser humano que a sociedade reprime e que as crianças, que ainda obedecem aos seus instintos, adoram. Bem ou mal, essas músicas existem e são ensinadas na escola, a mesma escola que diz que não pode bater no coleguinha, manda atirar o pau no gato. Não sou a primeira a questionar isso, a música até já foi mudada, mas ainda existe. Sinceramente não sou a favor de reprimir nada, embora concorde que seja necessário. Assim como minha opinião, a educação em si é contraditória, é como se a escola ensinasse uma coisa e a vida outra.
Nunca gostei da Xuxa, nem quando era criança e, por isso, evito ouvi-la com as crianças, mas admito que o último cd dela possui algumas músicas pedagógicas e, embora a voz dela seja irritantemente chata, as músicas são até legais.
Quando comecei a trabalhar com educação infantil (ano passado), fui em busca de músicas e, felizmente, descobri o grupo Palavra Cantada , que na verdade é uma dupla, cuja bagagem de músicas além de agradarem aos nossos ouvidos, dizem alguma coisa. São músicas inteligentes, lindas e, muitas vezes emocionantes. Duas delas me deixaram, sinceramente, sem reação. Fiquei chocada – positivamente – quando as ouvi, impressionada.
A primeira delas é “Gramática”, a música é linda e extremamente profunda, prestem atenção na letra e, se possível, baixem a música, a melodia é uma delícia.
O substantivo
É o substituto
Do conteúdo
O adjetivo
É a nossa impressão
Sobre quase tudo
O diminutivo
É o que aperta o mundo
E deixa miúdo
O imperativo
É o que aperta os outros
E deixa mudo
Um homem de letras
Dizendo idéias
Sempre se inflama
Um homem de idéias
Nem usa letras
Faz ideograma
Se altera as letras
E esconde o nome
Faz anagrama
Mas se mostro o nome
Com poucas letras
É um telegrama
Nosso verbo ser
É uma identidade
Mas sem projeto
E se temos verbo
Com objeto
É bem mais direto
No entanto falta
Ter um sujeito
Pra ter afeto
Mas se é um sujeito
Que se sujeita
Ainda é objeto
Todo barbarismo
É o português
Que se repeliu
O neologismo
É uma palavra
Que não se ouviu
Já o idiotismo
É tudo que a língua
Não traduziu
Mas tem idiotismo
Também na fala
De um imbecil
A música é perfeita, primeiro porque não se trata de uma coisa bobinha do tipo borboletinha fazendo chocolate para a madrinha e, em seguida, porque exige mais da criança, não exalta seu lado agressivo, por exemplo, mas ao mesmo tempo não o coloca fora de cena, não o admite como algo não-natural. As músicas do Palavra Cantada não dizem que a vida é perfeita, prova disso é a música “Pé de Nabo”: “brincadeira, choradeira, pra quem vive uma vida inteira. Mentirinha, falsidade, pra quem vive só pela metade”.
A segunda música que me impressionou foi “Pindorama”, segue a letra com sua respectiva inteligência e profundidade.
A música é perfeita, primeiro porque não se trata de uma coisa bobinha do tipo borboletinha fazendo chocolate para a madrinha e, em seguida, porque exige mais da criança, não exalta seu lado agressivo, por exemplo, mas ao mesmo tempo não o coloca fora de cena, não o admite como algo não-natural. As músicas do Palavra Cantada não dizem que a vida é perfeita, prova disso é a música “Pé de Nabo”: “brincadeira, choradeira, pra quem vive uma vida inteira. Mentirinha, falsidade, pra quem vive só pela metade”.
A segunda música que me impressionou foi “Pindorama”, segue a letra com sua respectiva inteligência e profundidade.
Pindorama, Pindorama
É o Brasil antes de Cabral
Pindorama, Pindorama
É tão longe de Portugal
Fica além, muito além
Do encontro do mar com o céu
Fica além, muito além
Dos domínios de Dom Manuel
Vera Cruz, Vera Cruz
Quem achou foi Portugal
Vera Cruz, Vera Cruz
Atrás do Monte Pascoal
Bem ali, Cabral viu
Dia 22 de abril
Não só viu, descobriu
Toda terra do Brasil
Pindorama, Pindorama
Mas os índios já estavam aqui
Pindorama, Pindorama
Já falavam tudo em tupi
Só depois vêem vocês
Que falavam tudo em português
Só depois, com vocês
Nossa vida mudou de uma vez
Pero Vaz, Pero Vaz
Disse numa carta ao rei
Que no altar, sob a cruz
Rezou missa o nosso frei
Mas depois, seu Cabral
Foi saindo devagar
Do país tropical
Para as Índias encontrar
Para as Índias, para as Índias
Mas as índias já estavam aqui
Avisamos, olha as índias!
Mas Cabral não entende tupi
Se mandou para o mar
Ver as índias em outro lugar
Deu chabu, deu azar
Muitas naus não puderam voltar
Mas enfim, desconfio
Não foi nada ocasional
Que Cabral, num desvio
Viu a terra e disse: uau!
Não foi não, foi um plano imperial
Pra aportar seu navio num país monumental
A Álvares Cabral
A El-rei Dom Manuel
Ao índio do Brasil
E ainda a quem me ouviu
Vou dizer, descobri
O Brasil ta inteirinho na voz
Quem quiser vem ouvir
Pindorama ta dentro de nós
A Álvares Cabral
A El-rei Dom Manuel
Ao índio do Brasil
E ainda a quem me ouviu
E ainda a quem me ouviu
Vou dizer, vem ouvir
É um país muito sutil
Quem quiser descobrir
Só depois do ano dois mil
O grupo trabalha com um vocabulário rico e é exatamente isso que acredito que falta nas escolas. Nós simplificamos tudo ao invés de fazer com que as crianças se esforcem para compreender o complicado. Mas educação não se muda da noite para o dia, assim como não é uma responsabilidade somente dos professores. No entanto, acredito que podemos começar sabendo selecionar as músicas que vamos ensinar aos pequenos. Palavra Cantada é uma ótima, vale a pena conhecer e usufruir.
O grupo trabalha com um vocabulário rico e é exatamente isso que acredito que falta nas escolas. Nós simplificamos tudo ao invés de fazer com que as crianças se esforcem para compreender o complicado. Mas educação não se muda da noite para o dia, assim como não é uma responsabilidade somente dos professores. No entanto, acredito que podemos começar sabendo selecionar as músicas que vamos ensinar aos pequenos. Palavra Cantada é uma ótima, vale a pena conhecer e usufruir.
Laís Bastos da Silva
Comentários