Confissão - 23/11/09


Algumas coisas já nascem com a gente. Acredito que este é o caso da minha aversão à Igreja e, leia-se, religiões em geral. Nunca gostei dos padres, dos pastores e de qualquer outro tipo de gente que fique “pregando a palavra de Deus”, isso já nasceu comigo. Das missas, a única parte boa era – e ainda é- o momento da comunhão, eu adoro a hóstia, sobretudo quando mergulhada no vinho. Certa vez fui visitar o seminário de uns colegas de turma e enquanto vasculhava o local, encontrei uma taça cheia de hóstias, gentilmente, perguntei se poderia comer algumas e, com permissão, o fiz. Um pecado e tanto aos olhos dos religiosos. As missas sempre foram insuportáveis, o tempo não passa, causam sono,inquietação e, se você perde tempo de ouvir o padre, causam também repulsa. Nunca fui a uma por vontade própria, sempre estava sendo arrastada por alguém. O mesmo horror ocorreu quando fui a um culto, fiquei na dúvida se Jesus era surdo ou louco. Quando me aventurei a conhecer a doutrina espírita, de início até achei legal, algo mais aberto, mas no fim descobri que é o mesmo egoísmo disfarçado das outras. Garantia de céu, paraíso, não sofrimento, tranquilidade após a morte. E você faz tudo esperando algo em troca, só que, ao contrário dos não-religiosos, não admite o que faz parte de sua natureza, o egoísmo.

Desde sempre fui cobrada por ser assim, errada na concepção de minha avó, negativa na de minha irmã. Meus alunos têm entre quatro e seis anos e estão proibidos de falar de Deus e religião na sala de aula, todos têm consciência disso. Não que eu não permita a crença e também a cegueira, mas como se tratam de crianças e escola, faço questão de deixar bem claro que aquele não é o melhor lugar para o assunto, até porque, como sou a referência deles, qualquer que seja a discussão, pedem minha opinião e, se eu falar o que penso, corro o risco de ser linchada pelos pais no dia seguinte, portanto, não deixo a conversa fluir. Porém, a escola não tem nada a ver comigo. A direção espalha cartazes com mensagens de Deus por todos os lados, por sorte, é uma escola de educação infantil e apenas minha turma está lendo, mas não os vejo parando para lerem aquilo, eles preferem escrever cartinhas para mim. Mas a direção extrapola, enche meu planejamento de dizeres e às vezes se atreve a colar coisas em minha sala que imediatamente são arrancadas, gostem ou não. Infelizmente, sou a única lá dentro que penso assim e certamente faço parte da minoria que, dentro da educação, não permite religião. É mais fácil para as professoras dizer às crianças que um ser cujo poder é assustador, as observa e pune, até porque elas também acreditam nisso, embora, contraditoriamente, façam muito pouco pelos alunos.

Em um mês estarei saindo dessa esfera, por motivos financeiros e também ideológicos. A religião faz parte dos muitos detalhes preocupantes que impedem a evolução da educação. Há também o preconceito, a submissão das escolas particulares às futilidades dos pais, e o descaso da escola pública porque o salário, independente do resultado do ensino, é garantido; e, sobretudo, a falta de consciência dos educadores sobre sua importância na vida dos alunos, sejam eles grandes ou pequenos. Embora pareça, não desisti, desejo apenas um lugar em que eu não me sinta tão estranha e que minha fala, raramente pronunciada, seja ouvida. E, sonhando um pouco mais alto, um lugar em que eu consiga, dentro da educação, fazer com que a religião seja, ao menos, questionada, pois acredito que seria um grande passo para que pudéssemos, de fato, evoluir. A religião é que barra diversos avanços, tecnológicos e intelectuais, fermenta preconceitos e, além de tudo, rouba tanto quanto nossas vossas excelências. E, vale lembrar, já nasci querendo distância dessa coisa que nos limita.


Laís Bastos da Silva

Comentários

Anônimo disse…
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