Acesso (11/11/2009)


A influência, direta e avassaladora, que ele exercia sobre seu espírito, não raro, fazia com que procurasse respostas que explicassem tamanha fragilidade. Sentia-se frágil diante dele e, para que isso se confirmasse, bastava um olhar, uma ausência de resposta ou um comentário qualquer.

Por que tenho sempre a sensação de saber o que ele está pensando? Perguntava-se. Sabia que ter acesso ao pensamento do outro é sempre um risco. Quanto mais tentava certificar-se de que estava enganada, a prova do contrário lhe invadia. Conhecia suas estratégias, temia ser alvo delas, sabendo que era.

Queria que ele não lhe desse tempo para pensar no relacionamento, cômodo para ele e com agravantes que faziam com que ela desejasse, às vezes, sumir, para esquecer suas dores, tão escondidas quanto perceptíveis. Quando estavam juntos, desistia da ideia, mas esse tempo era sempre muito curto.

Por não conseguir frear sua imaginação e os pensamentos, chorava. Na rádio, a música colaborava tanto quanto o silêncio da noite.

Ir embora, assim que suas condições financeiras permitissem era, talvez, seu único “plano” de vida, só não sabia se era fuga ou medo de, ao invés de dizer, ter de ouvir tchau. Paradoxalmente, em seus pensamentos, ele sempre a acompanhava.

Ao se acalmar, e para isso bastava um olhar, uma resposta ou um comentário qualquer, dormia e, ao acordar, pensava nele, voltando a sonhar com o futuro que não se concretizaria..

Laís Bastos da Silva

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