Todas as cicatrizes que eu guardei Todos os sonhos que não realizei Todos os amigos que abandonei Toda ilusão que eu criei E agora, um mundo onde não existe lei do mais forte, do mais fraco Agora eu sei Quantas vezes eu errei!!!!!
Apesar de ser amante das palavras, sou avessa às desculpas. Gosto da palavra que expressa sentimento, constrói poesia, elabora dor, afeto. A palavra que se impõe como pedra, acreditando tapar um buraco quando não passa de um alívio covarde da culpa, me incomoda profundamente. Sou uma força da natureza. Quando silencio, é porque essa força está revirando minhas vísceras. É porque por excesso de prazer fui anestesiada ou de dor, dilacerada. Neste caso, pergunto-me: como pode o outro achar que após me violentar, basta renomear a violência, chamá-la de cuidado? O discurso do cuidado, nos aspectos que tem ocupado minha vida, me enoja porque sei que não passa de controle, dominação e manipulação. Me questiono se ele caberia no meu leito de morte se, sóbria, mas dilacerada, eu optasse por acabar com tudo num desses frequentes momentos em que acho que não vou aguentar. Gostaria de assistir de camarote as lágrimas de quem mata, mas para isso precisaria me...
Confraternização do trabalho. Não quis fazer parte. Da festa e de qualquer peça da engrenagem. Não pertenço! Talvez essa seja uma das poucas certezas que tenho, a de que não pertenço ao lugar onde passo maior parte do meu tempo. As vozes, risadas e passos se intensificam a ponto de eu, que não faço parte, desejar mais uma vez reforçar isso, agora ouvindo e sentindo intensamente Confortably Numb, Pink Floyd , a primeira que tocou da banda quando optei por música em vez de risadas. Vivo um período em que são os meus lábios que se movem e ninguém consegue ouvir o que estou dizendo, sequer eu mesma, mas insisto. E por mais quanto tempo sentirei necessidade de verbalizar a diferenciação que é evidente, de esbravejar para poder ser? Como continuar sendo sem pertencer? E o que ou quem sou? Minha identidade parece se (des)construir a golpes profundos de necessidade de sentido. Insisto na professora, mas minha amiga, ao falar de si, disse que entendeu que precisa deixar a ...
Lembro-me de meu pai nunca chegar da rua com algum doce, brinquedo ou qualquer outra coisa que anunciasse que pensou em nós, as filhas, enquanto esteve fora de casa. Lembro também que minha mãe cobrava isso dele e, como resposta, obtinha o argumento de que caso ele fizesse isso uma vez, teria que fazer sempre, pois criaria em nós, crianças, tal expectativa e nos desapontaria no dia em que não pudesse cumpri-la, por falta de dinheiro ou tempo, duas palavras que, aliás, sempre ocuparam o cerne de discussões, desentendimentos e justificativas. Ele nunca tinha tempo para brincar, sair, viajar ou fazer qualquer outra coisa além de trabalhar porque tinha que ganhar dinheiro, muito dinheiro. E até hoje não aceita que tenhamos tempo para essas coisas, porque acredita que temos que ganhar dinheiro, muito dinheiro. Excesso de ambição e prevenção. Medo de não o ter no momento da real necessidade. Só mais tarde descobri que, carente, meu pai queria que, desde pequenas, gostássemos dele sem que ...
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